Clínica em Osaka é acusada de discriminar estrangeiros e confiscar documentos: veja os vídeos

Veja o vídeo logo abaixo

O tunisiano Bilel Rhadoui, de 32 anos, só queria ir embora do Japão e voltar ao país dele. Em julho, ele comprou passagens para a Tunísia pela companhia aérea Emirates e reservou um hotel local para cumprir a quarentena obrigatória.

Estava tudo certo: reservas feitas, malas prontas. Porém, para viajar, ele precisava de um exame de coronavírus, feito dentro de 72 horas antes do embarque.

Bilel marcou o exame em uma clínica em Osaka, recomendada pela Embaixada da Tunísia.

O que era para ser simples, no entanto, se transformou em um pesadelo: a clínica se recusou a dar o resultado do exame antes da viagem, confiscou passaporte e cartão de residência, não devolveu os ¥55 mil do teste e fez o tunisiano perder a passagem.

“Eu não sei a razão disso, o que eu fiz para aquele médico. Depois que eles pegaram o meu passaporte e não devolveram, eu fiquei com muito medo. Eu não conseguia mais dormir”, contou Bilel ao Japão sem Tarjas.

Quem procurou a reportagem do Japão sem Tarjas para contar essa história foi a brasileira Sandra M., que vive há dois anos em Osaka e acompanhou Bilel na clínica.

Casada com um tunisiano (amigo de Bilel) e por ser a única que sabe falar japonês, Sandra conta que foi junto para ajudar na comunicação.

“Depois de confirmar a questão das 72 horas, fomos em uma sexta-feira fazer o exame (o voo era no domingo). Presenciamos uma confusão com um casal de chineses que estava sendo destratado. O exame estava pago e decidimos aguardar”, conta Sandra.

A brasileira ficou espantada com a gritaria que estava acontecendo com os chineses e decidiu gravar a cena. O médico viu que ela gravava e não gostou.

“Depois do exame, o médico disse que o resultado só sairia na próxima segunda-feira e que não poderia fazer nada se o voo do Bilel era no domingo. Ficamos indignados”, relatou.

INDIGNAÇÃO E REVOLTA

A brasileira e os dois tunisianos ficaram esperando do lado de fora para conversar com o médico, pois não foi permitido que ficassem dentro da clínica.

“O médico veio até nós no estacionamento e disse para eu apagar os vídeos dos chineses, que ele daria o resultado do exame no dia seguinte. Concordamos e os vídeos foram apagados na frente dele”, conta Sandra.

Quando os três estrangeiros voltaram no dia seguinte para pegar o resultado do exame conforme prometido, a situação se agravou.

“Eles pediram os documentos do meu marido e do Bilel assim que chegamos. Não tinha necessidade, o meu marido só estava acompanhando, mas entregou mesmo assim. A clínica não devolveu o passaporte e o cartão de residência deles e o médico disse que não daria o resultado do exame”, diz.

O vídeo mostra o marido de Sandra cobrando a devolução dos documentos. Aterrorizados, eles contam que foram em um posto policial denunciar o caso, mas não conseguiram fazer com que a polícia investigasse a clínica.

“A polícia não fez nada. Eles perguntaram ao médico, que disse que devolveu os documentos e ficou por isto mesmo. Acho que a polícia não tomou atitude porque somos da Tunísia e o médico é japonês”, desabafou Bilel.

Em outro vídeo gravado pelos estrangeiros, Sandra tenta conversar com o médico, explicar que Bilel precisava do resultado do exame para poder embarcar.

O médico, no entanto, parece mais preocupado com o fato de alguém estar fazendo uma gravação do que com o problema do tunisiano. Eles acabaram indo embora do local sem o resultado do exame, o dinheiro e os documentos.

Bilel acabou perdendo tudo. Além dos documentos, perdeu a passagem para a Tunísia e o dinheiro investido no exame. Ele também estava com a autorização de permanência no país para vencer e teve que negociar mais algumas semanas com a Imigração.

O caso aconteceu no início de agosto, mas Bilel só conseguiu retornar ao seu país este mês, depois de conseguir um documento provisório com a Embaixada da Tunísia.

“Eu fui para Tóquio e, por algum tempo, fiquei indo em lugares diferentes, pois não tinha mais dinheiro. Eu consegui dinheiro para voltar graças a ajuda de amigos. Desta vez, fui bem atendido em um hospital em Tóquio, para fazer o exame de coronavírus”, relatou.

Sem conseguir tomar nenhuma providência contra a clínica, Bilel acabou frustrado e decepcionado com o Japão.

“O Japão é conhecido na Tunísia por ser um país respeitoso aos direitos humanos, onde não há nada de errado. Porém, eu sou uma testemunha de injustiça e discriminação. Nunca mais quero morar no Japão de novo”.

IMPUNIDADE

Bilel Rhadoui durante o exame na clínica / Foto turística em Osaka (arquivo pessoal)

Depois de todo o ocorrido, Sandra preparou dois arquivos para relatar os fatos e em um deles, aponta o que acredita ser uma série de crimes cometidos pela clínica.

Para a brasileira, a equipe médica agiu de forma discriminatória com os estrangeiros, cometeu fraude, posse ilegal de documentos e fez chantagem. Ela também acredita que o local para a realização dos exames é insalubre.

“Os exames são feitos em uma garagem, não há o distanciamento social necessário e não há organização. O que importa é receber o seu dinheiro e o que vier depois, é problema seu”, diz.

Local do exame na garagem da clínica. (Arquivo pessoal).

Outro fato que chamou atenção foram as avaliações negativas na plataforma do Google Maps. Sandra também relatou o ocorrido na ferramenta, para alertar futuros pacientes.

A clínica respondeu, primeiramente, que não atendia “estrangeiros com ordem de deportação”, mas depois apagou o comentário. De qualquer forma, Bilel não havia recebido ordem de deportação.

Não realizamos exames médicos em pessoas com ordem de deportação”

Outro fato que chamou atenção é que a clínica respondia todas as avaliações negativas, de estrangeiros ou japoneses, com ameaças de processo por estarem “perturbando o negócio”.

Eles exigiam que os comentários fossem apagados do Google Maps o mais rápido possível. Em uma checagem nesta terça-feira (29), percebemos que, de fato, muitos comentários foram apagados, bem como as respostas da clínica.

Inclusive a avaliação de Sandra, que relatava todo o caso, foi apagada do sistema.

Para ela e os tunisianos, a quantidade de avaliações negativas mostram que o problema com a atuação da clínica já dura há bastante tempo e se nada for feito, continuarão impunes.

Sandra conta que chegou a contatar três advogados para processar a clínica, mas não teve sorte com nenhum deles.

“Falamos com um advogado australiano, que disse que por ser uma situação interna era melhor um advogado japonês. Depois falamos com outro em Tóquio, que convenceu o Bilel a desistir do passaporte e trabalhou para aumentar a estadia dele com a Imigração”, relatou.

O terceiro advogado, que tem experiência em casos de estrangeiros, aceitou o caso, mas queria um adiantamento de ¥200 mil e eles não tiveram recursos suficientes.

A situação de Bilel acabou resolvida, mas a injustiça não foi esquecida e Sandra ainda busca uma forma legal de punir a clínica e impedir que algo parecido ocorra novamente.

“Só quero justiça neste caso. Não é justo termos passado por tudo isso e a clínica continuar ilesa. Se ninguém fizer nada, eles vão continuar agindo assim com outras pessoas”, lamenta.

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(Matéria publicada em 29 de setembro de 2020)

Autor: Ana Paula Ramos

Jornalista e escritora, Ana Paula tem sete anos de experiência no Japão, atuando como repórter na comunidade brasileira e como freelancer. Ela é a fundadora do Japão sem Tarjas e criadora do grupo "Por que você também não faz?", que realiza mutirões de limpeza em praias no Japão. Em outubro de 2020, publicou o seu primeiro livro, "O Oitavo Andar", um suspense que se passa na cidade de Gramado e está disponível na Amazon.

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