Como é um “sugar daddy” no Japão e como eles ficaram ainda mais populares com a pandemia

Photo by Vidar Nordli-Mathisen on Unsplash (imagem ilustrativa)

Em vários países, incluindo o Brasil, há mulheres que se relacionam com os chamados “sugar daddies”, homens geralmente mais velhos, bem-sucedidos e dispostos a bancar a vida de sua “baby” em troca de encontros amorosos.

No Japão, eles não apenas existem, como se tornaram mais populares com a crise provocada pela pandemia do coronavírus.

Uma reportagem recente do portal Gendai Is Media mostrou a realidade de algumas mulheres japonesas, que optaram por se relacionar com um “sugar daddy” para obter alívio financeiro diante dos efeitos da crise.

Yume (nome fictício), tem 25 anos e trabalha em uma creche na província de Tóquio, mas foi afetada com a suspensão das atividades e a renda caiu em 60%.

Por causa das dificuldades em pagar as contas, ela contou ao portal que decidiu procurar por um sugar daddy. Em termos gerais, as acompanhantes costumam ganhar de ¥5 mil a ¥10 mil apenas por uma refeição com o “daddy” e de ¥20 mil a ¥50 mil por uma relação sexual.

“Comecei a pesquisar nos blogs sobre o assunto e descobri que existem os ‘futo papa’, que pagam várias notas de ¥10 mil só de acompanhar em uma refeição. Se for só um jantar, eu pensei que eu também poderia fazer isto”, diz Yume.

Os chamados “futo papa” (太パパ)são os homens mais cobiçados neste universo. Eles têm alto poder aquisitivo, podem pagar as contas de um apartamento luxuoso e dar altas quantias de dinheiro por mês para suas “babies”.

A relação com esses homens geralmente é de amante e há artigos japoneses que dão dicas sobre como conquistar um.

De acordo com o portal, no entanto, este tipo de sugar daddy é raro e os sites destinados a promover este tipo de encontro possuem mais mulheres cadastradas do que homens.

No caso da Yume, o resultado foi bem abaixo de suas expectativas. “No fim das contas, consegui apenas um encontro por aplicativo e não ganhei mais do que ¥10 mil”, diz.

REALIDADE AMARGA

Photo by Jared Sluyter on Unsplash (imagem ilustrativa)

As mulheres que encontram um ou mais “sugar daddy” para pagar suas contas, no entanto, acabam envolvidas em uma rede de prostituição camuflada, que muitas vezes é tratada com outros termos.

O portal também conversou com Sayaka (nome fictício), uma jovem japonesa de 22 anos, de pele clara, nariz arrebitado e cabelos longos, que se diz popular entre os homens.

Sayaka sonhava em se tornar uma pâtissier (especialista em confeitaria), e chegou a entrar em uma escola especializada, mas acabou viciada em host clubs (bares onde homens bonitos atendem mulheres) e adquiriu dívidas.

No fim das contas, ela acabou desistindo dos estudos e caiu na vida noturna. Por causa do coronavírus, as boates que Sayaka atuava tiveram as atividades suspensas e a jovem ficou com dificuldades financeiras e sem conseguir pagar suas dívidas.

A solução para o problema foi se relacionar com alguns “sugar daddies”. Por achar o ganho com as refeições muito baixo, a jovem decidiu ter relações sexuais com os homens mais velhos disponíveis, em troca do dinheiro e patrocínio.

“Não tive resistência alguma para manter este tipo de relacionamento. Quando faço sexo, entro no ‘modo trabalho’ e até esqueço que eles são seres humanos”, revelou.

Com um ganho médio de ¥40 mil por encontro amoroso, Sayaka conta que se relacionou com dez “sugar daddies” e obteve um ganho de ¥400 mil.

No entanto, o dinheiro logo se foi com o pagamento das dívidas, aluguel e contas de casa.

“Para me relacionar com um suggar daddy preciso ser como um produto. Invisto em roupas, maquiagem e acessórios. Pouco sobra para despesas comuns do dia a dia e preciso escolher o que é mais barato no supermercado”, contou.

RISCOS

Photo by Joshua Ness on Unsplash (imagem ilustrativa)

Para algumas mulheres, ter uma relação casual com um homem que irá pagar as contas pode parecer uma solução fácil para os problemas financeiros.

Porém, na prática, a busca por um “sugar daddy” muitas vezes resulta em riscos como de violência sexual ou mesmo “calotes” após um encontro.

Esta realidade não é diferente no Japãoe segundo a reportagem, muitas mulheres que sofrem danos acabam sem procurar a polícia, pois não querem contar suas histórias.

Muitos encontros acontecem por aplicativos, onde é possível esconder informações como o nome real, local onde vive e local de trabalho.

Ao confiar em um encontro com um desconhecido, as mulheres enfrentam riscos como de estupro ou de homens que “fogem” após o encontro, sem pagar o prometido. Esses casos são chamados de “yarinige” (やり逃げ), algo como “fazer e fugir” em japonês.

APLICATIVOS

Photo by Vino Li on Unsplash (imagem ilustrativa)

Não faltam informações, blogs e artigos japoneses para mulheres em busca de um sugar daddy no Japão.

Um dos aplicativos mais recomendados se chama “Mitsumitsu” e embora seja apenas uma plataforma comum para encontros amorosos, é muito utilizada por homens mais velhos, em busca de mulheres mais jovens para relacionamentos casuais e com ganho financeiro.

Em muitos perfis, os homens exibem informações como renda anual e especificam os seus interesses. Alguns chegam a dizer que são casados e estão em busca de mulheres que “não se importem com isto”.

Há também um site destinado a promover encontro entre ‘daddies’ e ‘babies’. O sugardaddy.jp promete conectar os homens com poder aquisitivo e as mulheres interessadas no financiamento.

Totalmente gratuito para as usuárias, a plataforma possui planos mensais para os cadastrados do sexo masculino e é preciso se tornar um assinante para mandar mensagens as candidatas aos encontros e “patrocínio”.

Um estilo de vida sem dúvidas arriscado. Em tempos de crise e dificuldade financeira, tem sido visto como solução para mulheres que, muitas vezes, só estão em busca de sobrevivência.

(Matéria publicada 27 de agosto de 2020)

Autor: Ana Paula Ramos

Jornalista e escritora, Ana Paula tem sete anos de experiência no Japão, atuando como repórter na comunidade brasileira e como freelancer. Ela é a fundadora do Japão sem Tarjas e criadora do grupo "Por que você também não faz?", que realiza mutirões de limpeza em praias no Japão. Em outubro de 2020, publicou o seu primeiro livro, "O Oitavo Andar", um suspense que se passa na cidade de Gramado e está disponível na Amazon.

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