“Ela se matou no ofurô”, brasileiros contam como é morar em imóveis com registro de morte no Japão

Banheira do apartemento de Sheila Sato, foi reformado após o incidente | Foto: arquivo pessoal

Você acha que encontrou o imóvel dos sonhos. Bem localizado, espaçoso e o aluguél muito inferior ao preço de mercado.

Porém, há um detalhe importante: o último morador cometeu suicídio, foi assassinado ou simplesmente morreu, mas demoraram semanas para descobrir o corpo.

No Japão, este tipo de imóvel é conhecido como “Jiko Bukken” (事故物件) e é procurado por aqueles que querem pagar menos e não se importam com os incidentes ocorridos com antigos moradores.

Por lei, as imobiliárias do Japão precisam avisar ao interessado quando houve mortes recentes dentro do apartamento. Se este aviso não for dado, é possível cobrar uma indenização.

Entre as pessoas que moram ou já moraram neste tipo de imóvel, há histórias de quem testemunhou fenômenos estranhos, como vultos. passos pela casa e luzes piscando.

Porém, há também casos de pessoas que decidiram arriscar, ganharam um apartamento bom e de baixo custo e vivem em paz.

A brasileira Sheila Sato está há mais de um ano em um apartamento na cidade de Toyohashi (Aichi), onde uma pessoa cometeu suicídio dentro do ofurô (banheira).

O aluguél baixou de ¥76 mil para ¥56 mil e não foi só o preço que atraiu a atenção de Sheila, mas também a permissão para ter animais de estimação e a espaçosa vaga de estacionamento.

“O incidente aconteceu em outubro de 2018 e eu me mudei três meses depois. Parece que ela tinha problemas mentais e se enforcou na banheira. Eu até esperei que fosse acontecer algo estranho, mas não há nada de errado no apartamento”, conta.

Após o incidente, a parte interna do ofurô foi trocada. “Eles limparam e benzeram. A imobiliária me avisou e quando fui conhecer, não senti nada ruim lá dentro. Por isso fiquei com o apartamento”, explica.

Mãe de dois meninos, a brasileira conta que explicou para as crianças e que não tem receio nenhum de usar a banheira.

“Ganhamos este desconto por sermos os primeiros moradores depois do ocorrido. O próximo inquilino paga o valor normal e essa história de gente morrer dentro do apê fica por encerrado”, diz.

ENERGIA RUIM

Photo by Ante Hamersmit on Unsplash

A brasileira Marcia Kanashiro não teve muita sorte com um imóvel em Omihachiman, uma cidade na província de Shiga.

Marcia conta que morou em 2003 em um apartamento onde um rapaz se suicidiou, mas talvez por não ser a primeira moradora após o incidente, não foi informada pela imobiliária e não recebeu descontos no aluguél.

O caso foi descoberto por causa dos incidentes e da sensação ruim que ela conta que sentia no dia a dia.

“Eu me sentia muito mal lá dentro. Demorei para perceber, pensei que fosse saudade, ansiedade ou tristeza. Eu tive uma visão de gotículas de sangue no banheiro e depois soube do ocorrido por vizinhos. Nem quis entrar em detalhes, já estava de mudança marcada”, conta.

Como ia se mudar, Marcia não chegou a procurar a imobiliária para saber o motivo de não ter sido avisada, mas diz que se soubesse desde o início, não teria se mudado para aquele local.

“Eu morava sozinha e tenho muita sensibilidade. Já passava muito mal só de imaginar o que aconteceu lá dentro, por isso não quis saber os detalhes sobre a pessoa”, explica.

E MORTE NATURAL?

Há quem não se importe com essas propriedades quando a morte ocorreu por causas naturais.

No Japão, estima-se que ocorra cerca de 30 mil “mortes solitárias” por ano, que são chamadas de “kodokushi” (孤独死). Isto sugere que há muitos imóveis com registro de mortes naturais.

Na maioria dos casos, são idosos que morrem dentro de suas casas e é normal que as autoridades demorem dias ou semanas para descobrir o corpo.

A brasileira Andreia Hissamori vive com a família há três anos em um apartamento com este histórico na cidade de Komatsu (Ishikawa). Andreia conta que um idoso morreu de infarto no quarto e o corpo foi descoberto uma semana depois.

“No início eu fiquei com medo, mas nunca aconteceu nada. Durmo no quarto onde ele faleceu e não tem problema. O apartamento foi reformado, sinto paz aqui dentro, tenho cachorro e as amigas da minha filha vem dormir aqui, ninguém reclama de nada”, relatou.

Quarto no apartamento da Andreia, onde um idoso morreu de causas naturais | Foto: arquivo pessoal

Um apartamento espaçoso com um aluguel mais em conta é bastante atrativo e um prato cheio para quem não tem medo de fantasmas.

O atrativo deste tipo de imóvel fez surgir uma imobiliária especializada. A empresa Jobutsu Fudousanya trabalha apenas com apartamentos e casas que possuem registros de mortes e aluguéis mais baratos.

É possível fazer buscas por província, cidade ou mesmo por “tipo de incidente”. Os aluguéis costumam cair de 20% a 30% em caso de suicídio e até 50% em caso de assassinato.

Um apartamento de 70 m² e três quartos na província de Fukuoka, anunciado no site da imobiliária, sai por ¥62 mil mensais. Porém, a descrição do imóvel logo avisa: ocorreu um caso de suícidio ali dentro.

MAPA DE INCIDENTES

Para quem desconfia que mora sem saberneste tipo de imóvel, há uma maneira fácil de descobrir.

O famoso site “Oshimateru” apresenta um mapa dinâmico, onde as propriedades ou locais públicos que registraram mortessão marcados no mapa com um símbolo de fogo:

Mapa mostra onde ocorreram incidentes, mortes e suícidios no Japão | Foto: oshimaland.com

Além de pesquisar o próprio endereço, você pode verificar o histórico dos vizinhos, daquela casa com aspecto de abandono na sua vizinhança e de locais que você frenquenta na cidade.

O mapa indica se alguém pulou de um prédio em algum lugar, ou se um corpo foi encontrado em um parque, por exemplo.

Como as imobiliárias não avisam se o incidente for antigo, é uma boa forma de verificar o passado de um apartamento ou de uma casa antes de alugar.

E você, teria coragem de morar em um lugar que guarda um passado de mortes trágicas?

Autor: Ana Paula Ramos

Jornalista e escritora, Ana Paula tem sete anos de experiência no Japão, atuando como repórter na comunidade brasileira e como freelancer. Ela é a fundadora do Japão sem Tarjas e criadora do grupo "Por que você também não faz?", que realiza mutirões de limpeza em praias no Japão. Em outubro de 2020, publicou o seu primeiro livro, "O Oitavo Andar", um suspense que se passa na cidade de Gramado e está disponível na Amazon.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s