Os desafios de homens e mulheres trans no Japão: “falta compreensão na sociedade”

Rio Kouzai | Hikaru Kiyota (imagens de arquivo pessoal)

Rio Kouzai percebeu, ainda na infância, que era uma garota em um corpo masculino. Ela nasceu e cresceu na Espanha, filha de pai japonês e mãe hispano-chinesa.

Há três anos, tomou a decisão de vir morar no Japão, começar a vida do zero e finalmente passar pela transição de reafirmação sexual.

“Eu tinha um trabalho na Espanha que exigia que eu atuasse como homem, então decidi mudar meu estilo de vida e vim para cá”, contou ao Japão sem Tarjas.

RIo mora na província de Hyogo e hoje, aos 51 anos, enfrenta questões tanto sociais quanto psicológicas. Ela gosta da vida que leva no Japão, mas se incomoda principalmente com a atitude de muitos homens.

“Os homens me tratam como um objeto sexual, mexem comigo na rua. Eles pensam que as mulheres trans são trans porque gostam de homem, não entendem que o gênero que você se identifica não tem relação com o sexo que você se atrai”, explica Rio, que tem uma namorada e pretende se casar.

Ela pretendia realizar a cirurgia de remoção do órgão genital em dezembro, condição obrigatória para trocar o registro civil na prefeitura. No entanto, mudou os planos por causa da pandemia do coronavírus e o desejo de ter um filho.

“Nós queremos casar e ter um filho. Minha namorada chora dizendo que quer um filho, então decidi adiar a cirurgia. Mas é muito complicada a nossa situação, pois eu estou tomando os hormônios”, diz.

O fato de ainda ser registrada como homem faz com que Rio prefira sair de casa vestida de homem eventualmente.

“Eu prendo os cabelos, coloco um boné e escondo os seios. É mais prático quando preciso resolver algo na prefeitura. O maior problema é que aí tento usar o banheiro masculino, mas tenho um corpo feminino e as pessoas chamam minha atenção”, ela conta, rindo.

IDENTIDADE SECRETA

Rio Kozai é uma mulher trans japonesa que vive em Hyogo (foto: arquivo pessoal)

Durante a entrevista, Rio revelou que fez carreira no mundo da música como homem, atuando como compositor e guitarrista. Ela conta que trabalha com uma gravadora, já fez turnês internacionais, lançou CDs e está preparando um novo álbum.

Sua identidade como músico, no entanto, é secreta.

“Eu lancei o último álbum em 2015 e falei com a gravadora que queria me revelar aos fãs. Eles me disseram que eu não podia, pois meus fãs vão ficar chocados”.

Agora, Rio cogita a possibilidade de fazer a revelação depois da pandemia, quando estiver pronta para lançar o álbum novo.

“Se eu quero aumentar a consciência com relação as pessoas trans, eu não posso me esconder do mundo”, diz.

A MISSÃO DE CONSCIENTIZAR

Hikaru Kiyota é um homem trans japonês, de 31 anos, que vive em Hiroshima. Assim como Rio, ele descobriu ainda na infância que se identificava com o sexo masculino e não teve problemas com a família.

“Tive sorte. Meus pais me apoiaram quando souberam das minhas intenções. Já tinham percebido pelo meu comportamento que eu não queria viver como mulher. Meus pais só se preocuparam com os impactos do tratamento na saúde e pediram para eu tomar cuidado”, conta.

Hikaru começou a transição há cerca de dez anos e logo percebeu os obstáculos sociais que as pessoas trans enfrentam na sociedade japonesa. Então, decidiu criar uma instituição de apoio.

Ele fundou a “Colorful HouSe”, que vem prestando consultas à comunidade trans, além de promover eventos de conscientização, como palestras em escolas.

Hikaru Kiyota, durante palestra em Hiroshima (Divulgação/Colorful House)

Ele contou em entrevista ao Japão sem Tarjas que recebe muitas consultas de outras pessoas interessadas em começar a transição de gênero, mas que estão confusas quanto aos procedimentos.

“As pessoas querem saber sobre o tratamento hormonal e os impactos para a saúde, onde é recomendado fazer cirurgia e onde podem fazer amigos na comunidade trans”, explica.

SOCIEDADE E TRABALHO

Para Hikaru, uma das dificuldades das pessoas trans ocorre no ambiente de trabalho, já que muitas empresas não sabem como agir quando um funcionário revela sobre a intenção ou o processo de transição de gênero.

“O principal problema é com aqueles que não trocaram seu registro civil. A empresa não sabe como lidar e eles não sabem se devem trabalhar como homens ou como mulheres. Fica difícil ser do jeito que você é”, afirma.

O registro é muito importante para que a pessoa trans seja reconhecida na sociedade japonesa, mas há vários obstáculos legais para trocar os documentos para o sexo oposto.

O Japão impõe uma lista de condições aos interessados, que precisam necessariamente passar pela transição, as injeções de hormônios e as cirurgias. Sem cirurgia, não é possível trocar os documentos e se a pessoa tiver filhos, não poderá enquanto a criança for menor de idade.

“Há pessoas que não conseguem fazer o tratamento por causa de suas condições financeiras ou por questões de saúde. Mesmo que não passem pela transição, ainda assim é preciso compreender que são homens ou mulheres de acordo com seus corações”.

Muitas vezes, basta atitudes simples para garantir um ambiente em que a pessoa trans se sinta confortável.

A empresa pode chamar um funcionário trans pelo nome masculino, por exemplo, para que ele possa ser tratado pelo gênero no qual se identifica e se sinta bem”, sugere.

Evento da instituição de apoio Colorful HouSe em Hiroshima (Divulgação/Colorful House)

Este desejo de ver as pessoas trans sendo melhor compreendidas e aceitas na sociedade japonesa, faz com que Hikaru siga com o seu projeto de conscientização.

”Quero que as pessoas saibam que o tratamento é difícil, que afeta o equilíbrio hormonal do nosso corpo e ás vezes ficamos doentes. Quero que conheçam a nossa realidade para que possam nos apoiar”, conclui.

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(Matéria publicada em 25 de setembro de 2020)

Autor: Ana Paula Ramos

Jornalista e escritora, Ana Paula tem sete anos de experiência no Japão, atuando como repórter na comunidade brasileira e como freelancer. Ela é a fundadora do Japão sem Tarjas e criadora do grupo "Por que você também não faz?", que realiza mutirões de limpeza em praias no Japão. Em outubro de 2020, publicou o seu primeiro livro, "O Oitavo Andar", um suspense que se passa na cidade de Gramado e está disponível na Amazon.

Nenhum pensamento

  1. Eu queria muito ir para o japão, mas eu fico pensando que lá posso sofrer quase a mesma transfobia que sofro aqui no Brasil, o que me é muito triste. Não aguento mais e tenho medo de ser morta. Parece que não há lugar no mundo em que eu possa viver em paz. E eu queria poder viver no japão porque me parece um lugar em que seria feliz, pelo menos gostaria de viver lá em paz.

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