Peruana diz que a filha foi agredida por idosa em mercado no Japão: “ninguém faz nada”

Crédito: Unsplash (imagens ilustrativas)

No início da tarde da última terça-feira (13), a peruana Marisol* voltava para a casa, com a filha de 9 anos, depois de uma consulta no médico, na cidade de Ashikaga (província de Tochigi).

A menina não foi para a aula naquele dia, pois estava enfrentando danos psicológicos, por causa do bullying severo que ela vem sofrendo na escola. Apesar das preocupações, o dia corria normalmente.

Na volta, Marisol decidiu passar em um supermercado. O plano era comprar yuzu (fruta cítrica) e voltar para a casa. No entanto, acabou surpreendida por um incidente inesperado, que piorou os problemas que a filha já estava enfrentando.

A menina perguntou se podia comprar um sorvete e elas caminharam até o freezer. A filha então se distraiu, escolhendo os sabores.

A peruana conta que tudo aconteceu muito rápido, quando uma senhora idosa japonesa se aproximou da criança.

“Ela deu um soco no ombro da minha filha e a empurrou forte. Eu estava perto e vi a cena. Ela gritou ‘iya da’ e eu fiquei em choque, sem reação. Senti vontade de bater nela de volta, mas não fiz isso”, contou ao Japão sem Tarjas.

“Iya da”, em japonês, é uma expressão de insatisfação, que pode significar algo como “não quero” ou “odeio isso”.

Marisol se aproximou da filha assim que viu a cena. Segundo ela, a idosa falou o nome do clube de atividades da escola, onde a menina costuma ficar depois da aula e onde vem sofrendo bullying.

“Ela não falou comigo, não se apresentou e nem sequer olhou para mim. Perguntou para a minha filha se já tinha acabado a aula. Eu disse que era ‘yasumi’ (estava de descanso) e tirei a minha filha de lá rapidamente”, explicou.

A menina contou que não conhecia a idosa, mas depois disse que podia ser uma senhora que trabalha eventualmente no clube de atividades. Marisol conseguiu confirmar com a responsável do clube que a idosa de fato trabalha lá, mas não conseguiu compreender o que gerou a agressão repentina.

“Eu acho que foi por preconceito com estrangeiros, pois a mulher não olha na nossa cara. Minha filha já tem trauma por causa do bullying. Ela estava se machucando, fazendo uma ferida na mão sangrar. Ela tinha parado por um dia, mas depois do ocorrido, voltou a fazer”, lamentou.

POLÍCIA E DOR DE CABEÇA

Photo by Carolina Heza on Unsplash (imagem ilustrativa)

Inconformada, Marisol voltou para a casa decidida a não deixar o episódio passar em branco.

Primeiro, ela conta que ligou para a consultoria infantil do Comitê de Educação local, que está acompanhando o caso do bullying da filha. Depois, falou com a polícia.

“Seis policiais se aproximaram da minha casa e conversaram com a minha filha, que confirmou o que a mulher fez. Eles fizeram perguntas e tiraram fotos, mas não queriam fazer nada, pois não tinha sangue nem marca no ombro dela”, relatou.

Depois disso, a peruana foi para a delegacia e diz que passou quatro horas lá, tentando, sem sucesso, fazer uma denúncia.

Ela conta que os polícias acionaram a escola, obtiveram as imagens das câmeras de segurança do mercado e a mulher foi identificada e foi chamada na delegacia, mas não confirmou a agressão.

“Ela disse na minha cara que não tinha batido na minha filha, que tinha só cumprimentado e que tinha sido gentil com ela. Eu fiquei com vontade de bater nela na frente de todo mundo”, desabafou.

A frustração só piorou com a reação da polícia, que decidiu que não era um caso de denúncia e tentou convencer a peruana de que aquilo é um cumprimento normal no Japão e que ela confundiu as coisas.

“Eu vivo neste país há 15 anos, nunca vi alguém fazer isso com uma criança ou mesmo entre adultos. Socar e empurrar, isto não é cumprimento em lugar nenhum do mundo”, questionou.

O caso acabou sem denúncia registrada. Os políciais teriam mostrado as imagens das câmeras para Marisol e apesar do registro do empurrão, eles disseram que se tratava de uma forma de cumprimentar.

Até o “iya da” foi explicado pela polícia. “Eles disseram que eu ouvi errado, que foi um ‘ya!’, tipo ‘olá!’, apenas um cumprimento. Eu sei o que eu ouvi”, diz.

No fim das contas, a polícia teria insistido que não se tratava de caso de denúncia, mas algo para se resolver entre a escola e o clube de atividades, já que a idosa envolvida trabalha lá.

“Eu já estava cansada e de cabeça quente, só queria ir embora dali. Assinei os papeis e fui embora, mas quero processar essa mulher, não quero que isto fique impune”.

BULLYING E TRAUMAS

Crédito: Pixabay (imagem ilustrativa)

Marisol já vem enfrentando problemas com a filha na escola desde o ano passado. Este ano, a situação se agravou e a menina começou a apresentar sintomas claros de que havia algo errado.

“Ela começou a fazer xixi na cama, a roer as unhas e a chorar muito de noite. Eu perguntava se algo estava acontecendo e ela dizia sempre que estava tudo bem, que chorava porque tinha pesadelo”, conta.

Por causa da pandemia e a suspensão das aulas, a menina voltou a normalidade e a mãe se acalmou por um tempo. “Tudo voltou ao normal e eu acreditei que era só o estresse por causa dos estudos. Eu estava enganada”.

Quando as aulas voltaram, a situação piorou. A menina continuava dizendo que estava tudo bem e os professores também, até que um dia, Marisol recebeu uma ligação estranha da escola.

Um professor pediu desculpas no telefone, disse que as roupas da filha dela estavam sujas. A história era de que um menino jogou, sem intenção de machucar, uma bola na filha dela.

“Eu pensei que o professor viu e por isso mesmo me ligou, mas não foi assim. Naquela noite, minha filha entrou em crise de choro e eu fiquei assustada. Ela não se acalmava e me contou o que estava acontecendo. Ela disse que sentia muita dor, que estava dentro dela e não podia suportar. Chorou até dormir”, revelou.

Marisol ficou de coração partido com o problema da filha. Ela diz que só queria saber quem eram essas crianças que estavam fazendo isso e por sorte, a resposta chegou pouco depois.

A mãe de um menino na escola contou para uma amiga da família o que estava acontecendo, pois soube através do filho, que testemunhou o bullying várias vezes.

Garotos do terceiro, quarto e quinto ano estavam importunando e até mandando a menina se matar. Ela está no quarto ano da escola primária, mas os agressores da mesma idade são de outra turma.

“Eu usei um brinquedo para incentiva-la a falar e ela contou tudo. Vários meninos mexem com ela, falam besteiras. Dois deles disseram várias vezes para a minha filha morrer, que ela devia se matar. Eu não aguentei a vontade de chorar, não queria que ela visse meu desespero”.

Os sintomas da filha começaram a fazer sentido e a peruana conseguiu, na última semana, uma reunião com os pais dos agressores, que se sensiblizaram, se desculparam e se comprometeram a não deixar acontecer de novo.

A menina, no entanto, passa por graves consequências psicológicas, como crises noturnas de choro e automutilação. Marisol arrumou um psicólogo para a filha, tirou folgas do trabalho e passou a observa-la a maior parte do tempo.

“Ela está ferida emocionalmente e psicologicamente e eu estou desesperada com essa situação. Só quero justiça. Não posso processar as famílias dos garotos pelos danos causados na minha filha e nem sequer posso denunciar a mulher que bateu nela na minha frente. É desumano”, desabafou.

*Nome fictício, a pedido da entrevistada, para proteger a identidade da filha. 

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(Matéria publicada em 15 de outubro de 2020)

Autor: Ana Paula Ramos

Jornalista e escritora, Ana Paula tem sete anos de experiência no Japão, atuando como repórter na comunidade brasileira e como freelancer. Ela é a fundadora do Japão sem Tarjas e criadora do grupo "Por que você também não faz?", que realiza mutirões de limpeza em praias no Japão. Em outubro de 2020, publicou o seu primeiro livro, "O Oitavo Andar", um suspense que se passa na cidade de Gramado e está disponível na Amazon.

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