Dívidas absurdas, salários miseráveis: como o estágio no Japão se tornou armadilha para vietnamitas

Unsplash (imagens ilustrativas)

Presença marcante nos noticiários, os vietnamitas têm chamado atenção por crimes como furto de produtos, roubo de gado e permanência ilegal no Japão.

Embora a comunidade seja menor que a chinesa e a coreana, os vietnamitas são responsáveis por 35% dos crimes cometidos por estrangeiros no Japão.

O que está por trás de tantas ocorrências, no entanto, é um esquema repleto de irregularidades que começa com promessas no Vietnã. Iludidos pelas oportunidades, eles chegam ao Japão endividados, sofrem exploração laboral e recebem salários miseráveis.

Em junho deste ano, o Ministério da Justiça atualizou os registros sobre estrangeiros no país e divulgou que há mais de 420 mil vietnamitas residindo no Japão. O número teve acréscimo de 2,1% com relação aos dados do ano passado e bateu um novo recorde.

O Japão nunca teve uma comunidade tão grande de vietnamitas, formada em sua maioria por estagiários do programa do governo (Ginou Jishu Seido).

Atraente, o programa promete ensinar o oficio laboral aos nativos de países asiáticos em desenvolvimento, para que possam estudar, se aperfeiçoar e retornar ao país de origem capacitados para exercer atividades laborais.

Na prática, o que os vietnamitas se deparam é com dívidas, exploração e miséria. Muitos fogem de seus trabalhos, se tornam residentes ilegais e há aqueles que caem no mundo do crime.

Mas o início desta história começa no próprio Vietnã. Uma reportagem do portal Bunshun Online (veja aqui) contou em detalhes a dinâmica da vinda dos vietnamitas ao Japão.

Vamos viajar por um momento ao sudeste asiático e entender onde a armadilha começa.

Hanói, capital do Vietã, onde muitas organizações que enviam estagiários ao Japão atuam (Bunsho Online)

ENVIO DE ESTAGIÁRIOS

“Que tal ver o ambiente em que os candidatos ao estágio no Japão estão estudando e depois decidir se irá contratar? Obviamente, vamos arcar com os custos da viagem”.

É essa a primeira promessa que o representante de uma empresa que está cogitando contratar mão de obra estrangeira ouve sobre vietnamitas.

É assim que o representante acaba marcando uma viagem ao Vietnã, acompanhado do japonês que propôs a visita e que atua como intermediário da organização local, responsável por enviar os estagiários.

Administrada por vietnamitas, essa organização é responsável por todos os trâmites que levam os nativos do Vietnã para atuar como estagiários no Japão.

O sistema de estágios funciona através do envio dos estrangeiros e a aceitação deles no Japão. Os intermediários deste processo geralmente são japoneses e há muitas pessoas que atuam de má fé.

Quando o representante de uma empresa japonesa que está considerando contratar vietnamitas chega ao Vietnã, se depara com uma série de surpresas agradáveis. A começar pela recepção no aeroporto de um vietnamita fluente em japonês, que atua para a organização de envio dos estagiários.

O viajante convidado é levado para conhecer a instituição de ensino, onde vietnamitas estão aprendendo japonês. Geralmente, há muitas irregularidades, que são mascaradas durante a visita.

Quando o representante da empresa japonesa entra na sala de aula, os alunos se levantam de uma vez só e falam em voz alta um texto decorado em japonês.

“Seja bem-vindo! Nós queremos aprender as técnicas de trabalho do Japão! Vamos nos esforçar muito!”.

Maravilhado, o representante segue na companhia da pessoa responsável pela intermediação. Ao andar pelos corredores da escola e ao chegar na recepção, se depara com uma série de certificados de proficiência colados nas paredes, exaltando os excelentes resultados dos alunos.

“Se olhar direito, o lugar da assinatura está fora dos padrões, o carimbo do órgão público varia de um para o outro. Na verdade, esses certificados são todos falsos, apenas para fingir que os alunos têm bom desempenho”, conta um homem japonês identificado como T., que atua como intermediário e já acompanhou muitos representantes de empresas japonesas nessas viagens ao Vietnã.

Sem perceber os certificados falsos, o representante sai maravilhado da escola e então vai para o hotel.

Logo é recebido por um grupo de mulheres vietnamitas bonitas, outra parte importante do esquema que envolve a viagem“Escolha a companhia que quiser”, ele escuta e são poucos os que recusam a proposta.

Nas duas horas restantes até o horário da janta, vai se divertir no quarto com as vietnamitas. Depois é acompanhado pelas mulheres durante a refeição e passa horas agradáveis comendo e bebendo no hotel.

A viagem, que geralmente dura três dias e duas noites, acaba com a conversa sobre contrato. Os custos de gestão para receber os vietnamitas é cobrado dos próprios estagiários e varia de ¥20 mil a ¥50 mil por mês.

Este dinheiro vai em parte para a organização que enviou os estagiários e ao responsável pela intermediação.

“Eu recebo cerca de ¥500 por mês por cada vietnamita enviado para estagiar no Japão”, revela T.

A proposta é boa, considerando a cobertura dos custos de gestão e do treinamento após chegar ao Japão. Para a empresa, acaba saindo mais barato que contratar japoneses, caso haja mão de obra nativa disponível.

Satisfeito com a viagem e empolgado com a proposta, o representante da empresa volta ao Japão e vai conversar com o chefe.

“Sei que há muitas histórias sobre vietnamitas que desaparecem dos postos de trabalho e que se envolvem em crimes. Mas na escola que eu visitei, os alunos são excelentes, educados e ainda por cima o custo é baixo”.

Convencido, o chefe responde:

“Ótimo, então vamos contratar uns 20 estagiários”.

Assim, o responsável pela intermediação é contatado e a organização no Vietnã também. E desta forma, dezenas de vietnamitas chegam ao Japão atolados de dívidas e quase sem falar japonês.

Photo by Tore F on Unsplash (imagem ilustrativa)

DÍVIDAS ABSURDAS

É claro que o japonês responsável pela intermediação não se contenta com apenas ¥500 mensais por vietnamita enviado.

Os custos para enviar um estagiário vietnamita até o Japão variam entre ¥600 mil e ¥700 mil. Neste valor está incluso o custo com o curso de japonês, o dormitório onde irão se alojar, a alimentação, trâmites do passaporte e outros documentos necessários.

De acordo com a reportagem, este custo é de cerca de ¥300 mil no caso da Indonésia e Laos. No Nepal, a cobrança é na média de ¥500 mil. Varia de acordo com o país, o custo de vida local e o preço dos serviços realizados.

No caso do Vietnã, se isto tudo for encaminhado por um japonês intermediário, o custo sobe para ¥800 mil e pode chegar a ¥1 milhão. A organização cuida dos custos, mas cobra a conta dos estagiários e quando os vietnamitas chegam ao Japão, estão cobertos de dívidas.

“Todos os envolvidos costumam visar vietnamitas que vivem em regiões rurais, trabalham no campo. Eles não tem dinheiro para arcar com esses gastos todos. Os responsáveis pelas organizações de envio geralmente são vietnamitas que já trabalharam em banco, tem conhecimento de instituições financeiras”, diz T.

Por fim, com as dívidas altas que se tornam condição para estagiar no Japão e convencidos pela promessa de uma vida melhor, aprendizado técnico e salários altos em ienes, os estagiários dão por garantia terras de suas famílias e até o seguro de vida de seus pais.

“Sem contar que há uma elevada cobrança de juros anuais. Se for uma organização mais honesta, a cobrança fica em 5%, mas se for uma organização má intencionada, pode passar de 20%”.

DO VIETNÃ AO JAPÃO

E então, muitos vietnamitas que tinham uma vida simples no campo, sem conhecer mais do que sua terra natal, embarcam para uma viagem incerta ao Japão.

Sem muita noção sobre estar caindo em uma armadilha, muitos tem pouco contato com tecnologias e jamais pensam em buscar por informações. Mesmo que sintam que há algo de errado, acabam firmando um contrato de dívidas absurdas e partem rumo à terra dos samurais.

Vilarejo rural no norte do Vietnã, terra natal de muitos estagiários que embarcam ao Japão (Bunsho Online)

REALIDADE

A rotina no Japão começa e os representantes das empresas logo se tranquilizam com o jeito sério de trabalhar dos vietnamitas.

Mas logo os problemas começam e os vietnamitas acabam trabalhando mais do que o permitido por lei e ganhando muito pouco.

Muitas dessas empresas operam com irregularidades, deixam de pagar horas extras e oferecem salários que mal dão para os gastos básicos e com as dívidas, não sobra nada para eles.

Em entrevista ao jornal Mainichi (veja aqui), Nguyen (nome fictício), um vietnamita de 28 anos, prestes a embarcar de volta ao Vietnã, contou um pouco da terrível experiência que teve como estagiário no Japão.

Ele veio ao país em 2016, com uma dívida de ¥800 mil. Foi trabalhar em uma tenda agrícola administrada por uma construtora no norte da província de Kumamoto, região de Kyushu.

“A empresa forneceu um quarto, que eu dividia com mais duas pessoas. O chuveiro era em uma tenda do lado de fora, no inverno a gente congelava para tomar banho”, relembra.

Além da vida difícil, as condições de trabalho também eram precárias.

Nguyen em entrevista ao Jornal Mainichi (Foto: Mainichi Shinbun)

“Eu tinha quatro folgas ao mês e meu salário era entre ¥90 mil e ¥100 mil*. Como ¥20 mil iam para pagar o aluguél do quarto, eu recebia apenas ¥70 mil por mês. Cheguei a cobrar por melhorias ao chefe, mas fui ignorado”.

*Embora ¥100 mil seja cerca de R$ 5 mil no Brasil, é menos da metade do salário médio dos trabalhadores no Japão.

Encurralado com o trabalho por causa das dívidas, ele conta que pediu ajuda para um conterrâneo que estava em Tochigi e fugiu de seu local de trabalho.

Logo arrumou trabalho com a ajuda de um grupo de troca de informações para a comunidade vietnamita no Japão.

Depois de um tempo, arrumou um novo emprego e voltou a viver em Kumamoto, dessa vez na capital da província.

“Estava tudo bem, mas em julho deste ano, fui abordado por um policial na rua e ele descobriu que eu estava ilegal. Fui preso, depois recebi a liberdade provisória (karihoumen)”.

FUGA E NOVAS CONTRATAÇÕES

Muitos estagiários vietnamitas se veem encurralados pelas dívidas e trabalhando em condições quase escravatórias. O resultado disso, em muitos casos, é a fuga do local de trabalho.

Quando fogem, o representante da empresa entra em contato com o responsável pela intermediação, o mesmo que recebe ¥500 por mês com cada vietnamita enviado ao país e que acompanhou este representante na viagem ao Vietnã.

A resposta costuma ser assim:

“Eu não recebo mais do que ¥500 por mês com eles, o que o senhor quer que eu faça? Ainda temos muitos alunos, vamos mandar mais uma leva de estagiários? Quantos o senhor precisa?”

Se o representante ameaça consultar diretamente a organização, a polícia e a imigração, o intermediário manda fotos da bela noite em que ele passou com jovens vietnamitas em um hotel no país, quando veio visitar e verificar se valia a pena contratar os estagiários.

Em geral, o representante desiste de tomar qualquer providência. Baixa a cabeça ao chefe, à Imigração e se desculpa por seu erro de gestão. O intermediário acaba sem prejuízo algum com a organização que enviou os estagiários.

“E assim outro intermediário acaba por visitar a mesma empresa, que parte para novas inspeções no Vietnã e voltam a contratar mais estagiários e o ciclo se repete”, diz T.

RESULTADO

Para os vietnamitas que foram vítimas de má índole, dívidas absurdas e condições de trabalho irregulares, resta se juntar com outros vietnamitas que estão no Japão, procurar novos empregos com melhores condições e tentar refazer a vida.

As dívidas ficam e são cobradas de seus familiares, então não há como fugir disto. Por terem fugido dos postos de trabalho, eles ainda enfrentam condições de ilegalidade no país.

De acordo com a reportagem do portal Bunsho Online, muitos partem para a confecção de cartões de residência (Zairy Card) falsos, e tentam trabalhar mesmo que não tenham mais visto.

Daí por diante, já estão a um passo de se envolver com grupos criminosos, roubos massivos e venda de drogas, com a promessa de receber o dinheiro de que precisam para quitar as dívidas que deixaram.

Recentemente, alguns destes casos criminais foram divulgados na mídia.

Em outubro, a polícia japonesa prendeu quatro vietnamitas por abaterem porcos em um apartamento em Gunma. Outros 13 estão sendo investigados por suspeita de roubo de bezerros, porcos, galinhas e frutas.

Todos os vietnamitas envolvidos entraram no país como estagiários e estavam com os vistos vencidos.

*Siga a página Japão sem Tarjas (aqui) e acompanhe novas publicações. No Intagram, siga @japaosemtarjas.

Autor: Ana Paula Ramos

Jornalista e escritora, Ana Paula tem sete anos de experiência no Japão, atuando como repórter na comunidade brasileira e como freelancer. Ela é a fundadora do Japão sem Tarjas e criadora do grupo "Por que você também não faz?", que realiza mutirões de limpeza em praias no Japão. Em outubro de 2020, publicou o seu primeiro livro, "O Oitavo Andar", um suspense que se passa na cidade de Gramado e está disponível na Amazon.

Nenhum pensamento

  1. Há 3 anos atrás trabalhei numa fábrica de sobremesas, no outro setor tinha bastante vietnamitas. Ralavam igual a gente, pouco tempo depois um vietnamita denunciou no ministério de trabalho que estava sendo explorado e todos os compatriotas se juntaram a ele. No final o ministério reportou todos vietnamitas para casa deles, deu multa para a fábrica por ter não ter dado aos vietnamitas o acordo firmado antes.
    Só lendo a reportagem, dá para ter noção o quanto o Japão está desesperado de obter mão de obras…..

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