Após ataques da comunidade escolar, mãe com covid-19 comete suicídio em Tóquio

Foto: Unsplash (imagem ilustrativa)

O suicídio de uma paciente assintomática de covid-19 em Tóquio trouxe uma nova luz às questões que podem estar provocando o aumento da taxa de suicídio entre mulheres no Japão.

No mês passado, Misaki*, com idade na faixa de 30 anos, foi diagnosticada depois que o marido Yoshi* testou positivo para o vírus.

A filha do casal, estudante de escola primária (shougakko), também testou positivo e a rotina da família saiu dos eixos.

Yoshi ficou em tratamento médico em um hotel por duas semanas, enquanto a esposa e a filha ficaram de quarentena em casa. O marido voltou para a casa e se acomodou em um quarto separado, esperando que Misaki e a filha se recuperassem.

No entanto, em uma manhã de fim de janeiro, Yoshi foi surpreendido pelo silêncio e resolveu entrar no quarto da esposa, encontrando-a sem vida. Misaki deixou um bilhete que trouxe uma pista sobre o que pode ter provocado o suicídio.

“A minha filha e a escola estão passando por muitos transtornos e é tudo por minha culpa. Eu sinto muito por isso”.

De acordo com uma reportagem do portal News Post Seven, a causa do aumento do suicídio entre mulheres no Japão tem caído na conta das mudanças na estrutura familiar e instabilidade financeira devido aos impactos na economia.

No entanto, este caso indica que há outro problema que pode estar pressionando mães e donas de casa: o bullying e a falta de empatia que cerca o infectado.

COMUNIDADE ESCOLAR

Foto: Unsplash (imagem ilustrativa)

Yoshi contou que, dias antes de encontrar a esposa morta, a ouviu desabafar sobre suas preocupações. Misaki teria dito que o vírus provavelmente se espalhou na escola por causa da filha e que, como consequência, a menina acabaria sofrendo “ijime” (bullying) e exclusão dos colegas.

Outro ponto que entrou no foco das suspeitas foi o aplicativo de mensagens LINE, onde as mães das crianças mantinham contato, os casos de coronavírus eram relatados e a culpa da disseminação jogada sobre os que foram infectados primeiro.

Depois que a notícia foi divulgada pela mídia japonesa, outras mulheres compartilharam histórias parecidas, mostrando que o problema que afetou esta mãe está também circundando outras pessoas.

Mayumi*, uma dona de casa na faixa de 40 anos e mãe de um menino no 6° ano do primário, escreveu que “entendia muito bem o sentimento da mãe que cometeu suicídio”. 

Ela comentou que passou por uma situação parecida em dezembro do ano passado, quando testou positivo para o vírus.

“Eu comentei apenas com uma amiga da comunidade escolar e em questão de minutos, a história se espalhou para todo mundo. Percebi que elas estavam todas me evitando. Uma pessoa chegou a perguntar o que eu estava pensando para me infectar logo no período de proximidade das provas do ginásio”, desabafou.

SUICÍDIO DE MULHERES

Foto: Unsplash (imagem ilustrativa)

As taxas de suicídio monitoradas pelo governo do Japão mostram que desde o início da pandemia, o número de mortes entre mulheres tem aumentado a níveis alarmantes.

De acordo com os dados da Agência Nacional de Polícia, em 2020, o número de suicídio entre homens teve queda de 135 em comparação com os dados de 2019. No entanto, a taxa referente aos casos de mulheres registrou 885 mortes a mais, chegando a 6.976 óbitos.

Em entrevista ao Post Seven, a psiquiatra e chefe do Centro de Saúde Mental de Ibaraki, Emi Sassaki, disse que a pressão sobre as mulheres, principalmente sobre as mães e donas de casa, tem aumentado como consequência da pandemia.

“As famílias estão passando mais tempo em casa e a mães japonesas que também desempenham o papel de donas de casa estão tendo que lidar com um peso maior das tarefas domésticas. As mulheres que são contaminadas pelo coronavírus neste situação de estresse elevado precisam lidar com novas angústias e acredito que muitas estão sofrendo por isto”, comentou.

Além disso, a falta de empatia para com os infectados traz um acréscimo negativo à situação, que pode resultar no limite psicológico.

“É muito fácil que este tipo de problema ocorra no Japão. O infectado sofre bullying, ataques e discriminação, como esta mãe que acabou tirando a própria vida. O sentimento da vítima é este mesmo, de ter causado transtornos. É possível acabar infectado por mais que se tome cuidado. As pessoas deveriam colocar a culpa apenas no vírus e dar apoio aos contaminados”, sugere.

*Nomes fictícios.

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Autor: Ana Paula Ramos

Jornalista e escritora, Ana Paula tem sete anos de experiência no Japão, atuando como repórter na comunidade brasileira e como freelancer. Ela é a fundadora do Japão sem Tarjas e criadora do grupo "Por que você também não faz?", que realiza mutirões de limpeza em praias no Japão. Em outubro de 2020, publicou o seu primeiro livro, "O Oitavo Andar", um suspense que se passa na cidade de Gramado e está disponível na Amazon.

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