Preconceito faz coreanos nascidos no Japão esconderem suas raízes: “Meu pai nunca contou que era”

Unsplash (imagens ilustrativas)

A primeira vez que eu ouvi falar nos chamados “Zainichi”, os coreanos residentes especiais no Japão, foi em 2016, quando vivia em Osaka e fiz uma matéria sobre as circunstâncias das outras comunidades estrangeiras no Japão.

Osaka é uma das principais províncias da comunidade coreana, que é a segunda maior entre estrangeiros no Japão. Na época, visitei uma organização cultural onde os descendentes estudavam o idioma e a cultura de suas origens.

Descobri que apesar de carregar as raízes coreanas, a maioria deles tinha nascido no Japão, falava japonês como idioma nativo e nunca sequer tinha visitado o país vizinho.

Os “zainichis” vieram ao Japão em um momento delicado da história, quando a Península Coreana não se dividia em norte ou sul e foi ocupada pelo Japão, entre 1910 e 1945. 

O evento político provocou uma onda migratória massiva de cidadãos coreanos para o Japão e muitos não sabem se suas origens estão no norte ou no sul, já que não havia esta divisão na época. Eles são apenas “coreanos”.

Os japoneses protagonizaram uma série de horrores na Península Coreana, com exploração sexual de mulheres e trabalho forçado, entre inúmeras atrocidades que ficam para outro artigo.

O que mais me surpreendeu sobre este assunto, no entanto, foi em uma outra ocasião. 

Um ou dois anos depois desta matéria, conheci uma japonesa que trabalhava como professora em uma escola de ensino médio (koukou) em Osaka. Em uma conversa informal ela me contou que três alunos da turma em que dava aula eram de origem coreana, mas isto era segredo

Eles usavam pseudônimos japoneses e ninguém na turma desconfiava de suas origens. Assim podiam garantir que não seriam discriminados.

Os “zainichi” são vítimas frequentes de ataques de ódio na internet, onde rolam boatos de que eles cometem crimes e atrocidades no Japão. Em 1923, o rumor de que coreanos estavam jogando veneno em poços artesanais após o Grande Terremoto de Kanto, provocou uma onda de assassinatos contra esses imigrantes, recém-chegados na época.

A história é antiga, mas poderia se repetir em pleno 2021. Após o forte terremoto em Tohoku na última semana, boatos que rodaram pelo Twitter repetiam a notícia falsa de quase um século atrás, de que coreanos e desta vez negros estariam jogando veneno em poços.

Sobre este assunto, trago um relato de uma matéria do portal japonês Bunshun Online que me chamou atenção. É o relato pessoal da fotojornalista Natsuki Yasuda, de 33 anos, que é filha de pai coreano, mas cresceu sem saber deste fato.

Natsuki Yasuda, de 33 anos, cresceu sem saber que o pai era um “zainichi” coreano. Foto: Kokocara

Meu pai nunca contou que era coreano’

“Há muitas pessoas com origens diversas vivendo no Japão. O meu pai e meus avós são coreanos, mas eu cresci sem saber disto. Meu pai morreu quando eu estava no 2° ano do ginásio e até então nunca tinha ouvido falar disso. Mesmo para a minha mãe ele evitava falar sobre sua origem.

Quando eu descobri, fiquei me perguntando qual seria o motivo para o meu pai esconder quem ele era e viver como um japonês. Em setembro de 2020, utilizei alguns poucos documentos do meu pai e fui até o bairro de Fushimi, em Quioto, onde existia a casa dos meus avós e onde ele cresceu.

O local próximo ao Rio Kamo hoje é um estacionamento tomado pelo asfalto. Ali perto havia também a primeira escola de ensino básico para crianças coreanas em Quioto. A escola saiu dali em 2012 e hoje funciona um hotel no antigo terreno.

Em abril de 2009, a organização política Zaitokukai, que atua contra os direitos de residência especial concedidos aos coreanos, realizou protestos perto da escola com discursos de ódio por alto-falantes. Eles gritavam que os coreanos não mereciam estar vivos e as crianças que ouviram isto provavelmente sentiram que suas vidas estavam em perigo.

Não foram apenas as crianças afetadas. Muitos pais com intenção de valorizar suas raízes coreanas e passar um legado aos filhos de forma positiva os colocavam na escola. Uma mulher cujo filho estudou nessa escola na época conta que uma vez a criança lhe perguntou se era “ruim” ser um coreano.

Ao ouvir isto, ela mesma se lembrou dos traumas de infância, quando foi destratada simplesmente por ser coreana e contou que a experiência negativa veio em sua memória ao ouvir a pergunta do filho.

Fico me perguntando se o meu pai estivesse vivo, o que pensaria disso. A única resposta que eu encontro é que o meu pai provavelmente escondeu sua história para evitar que a gente sofresse as mesmas experiências amargas.

Hoje em dia ouvimos muito falar nos “zainichi ocultos”. Eles usam pseudônimos em japonês e vivem sem revelar suas raízes, para não sofrer discriminação. Agora, penso que o meu pai era uma dessas pessoas.

Escuto pessoas da mesma geração que eu contando histórias parecidas. No dia da formatura, gostariam de ter se vestido com o “chima jeogori” (traje tradicional coreano), mas desistiram por medo de como as pessoas reagiriam. Outras já me falaram de ter muito medo da família do japonês que gostariam de casar, por achar que não seriam bem-vindos por causa das raízes coreanas.

Mais de 10 anos se passaram desde o incidente do grupo Zaitokukai, mas o discurso de ódio continua e é fácil de encontrar na internet. O preconceito continua o mesmo e por causa disso, muitos coreanos e descendentes se sentem pressionados a esconder suas origens e preferem viver como se fossem japoneses”.

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Autor: Ana Paula Ramos

Jornalista e escritora, Ana Paula tem sete anos de experiência no Japão, atuando como repórter na comunidade brasileira e como freelancer. Ela é a fundadora do Japão sem Tarjas e criadora do grupo "Por que você também não faz?", que realiza mutirões de limpeza em praias no Japão. Em outubro de 2020, publicou o seu primeiro livro, "O Oitavo Andar", um suspense que se passa na cidade de Gramado e está disponível na Amazon.

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