O grupo de negacionistas que tenta convencer a sociedade japonesa de que o vírus é uma farsa

Protesto em Asakusa (Tóquio) no início de janeiro. Foto: Ana Paula Ramos

Era uma tarde fria de início de janeiro quando a japonesa Kii se reuniu com seu grupo de apoiadores — cerca de dez pessoas — logo em frente ao tradicional templo Senso-ji de Asakusa, em Tóquio.

Munidos de placas com as mais diversas acusações contra a pandemia, o grupo se dispersou entre os pedestres e cada participante ergueu alto seu material informativo.

Os japoneses que passavam por ali podiam ler de tudo: alegações de que a máscara baixa a imunidade, o teste PCR é fraude, alguém morre de câncer mas dizem que foi coronavírus e o vírus, aliás, não existe.

O protesto não se resumia em informação visual. O grupo também estava com alto-falantes, que reproduziam detalhes de suas alegações, afirmando que não há necessidade de usar máscaras, não há motivos para se preocupar com o vírus e as vacinas podem ser perigosas.

Quando eu cheguei no protesto, Kii estava atucanada. Agachada no asfalto, a vi tentando organizar uma pilha de panfletos que seriam distribuídos. Assim que me identifiquei como jornalista, ela me deu o material informativo que reforça a opinião do grupo sobre a pandemia. Passei os olhos rapidamente pelas três folhas:

“Diga não ao novo normal!”; “As vacinas são perigosas!”; “Não há comprovações científicas sobre o vírus!”. As frases se destacavam entre inúmeras explicações.

Dezenas de pessoas — quase todas de máscara — circulavam entre os negacionistas sem muitas reações. Quando havia algum tipo de abertura, eles conseguiam entregar o material.

Kii não quis revelar seu sobrenome ou idade. Mãe de quatro crianças e adolescentes, de 10 a 18 anos, ela é a fundadora da organização “Nihon to Kodomo no Mirai wo Kangaeru Kai” (Grupo para Pensar no Japão e no Futuro das Crianças”, que está por trás dos protestos.

Placas alegam que máscaras e desinfetantes baixam a imunidade e questionam medidor de temperatura em bares. No canto direito, Kii caminha com os panfletos. Foto: Ana Paula Ramos

A líder vem mobilizando participantes pelas redes sociais e já conta com quase 2.500 seguidores no Twitter.

Depois de uma conversa rápida, Kii chamou Sugimura, um senhor que participava do protesto e logo descobri que era um dos principais apoiadores. Eles me convidaram para tomar um café na mesma avenida e Sugimura explicou que é conhecido como “Jimaku Daiou”, o “Rei das Legendas”.

Com mais de 7 mil seguidores no Twitter, ele publica vídeos estrangeiros com legendas em japonês que reforçam suas ideias de que o vírus é uma farsa.

O grupo não é o único a compactuar com ideias que minimizam a pandemia no Japão.

Masayuki Hiratsuka, um político que tentou, sem sucesso, se eleger para o governo de Tóquio no ano passado, encabeçou uma série de protestos que alegam que o coronavírus “é só uma gripezinha”, algo que também se tornou assunto no Brasil, depois de alegações do presidente Jair Bolsonaro.

Em dezembro do ano passado, Hiratsuka acabou passando dos limites. Ele invadiu o terreno da Sociedade Médica do Japão em Tóquio, durante seu protesto contra o coronavírus. Foi convidado a se retirar por um guarda e como se recusou, foi retirado à força por policiais e acabou preso.

CONSPIRAÇÃO

Acompanhada de Kii e Sugimura — ambos sem máscara —, subi até o andar da cafeteria pelas escadas. Logo que entramos, a funcionária simpática apontou para o álcool gel do lado da porta e pediu para desinfetarmos as mãos.

Sugimura tocou no frasco e saiu andando. Kii revirou os olhos, soltou um “sim, sim” e saiu andando depois de dar um tapa no frasco. Eu fui a última, desinfetei minhas mãos e segui os dois até uma mesa no canto, de frente para a janela, cuja vista destacava os membros do protesto com suas placas enormes em frente ao tradicional portal Hozomon.

Video mostra um pouco do protesto em Asakusa

Kii logo contou que vem realizando suas atividades de protestos desde junho do ano passado, mas fundou a organização das crianças em agosto. Desde setembro, tem feito os eventos em nome da entidade.

Logo depois de pegar um café, Kii começou a me explicar o que pensava da pandemia, o coronavírus e as mortes pelo mundo.

“Acho que o coronavírus não existe e se por acaso existir, é um vírus fraco, mais fraco do que a influenza. O que realmente está acontecendo é que as pessoas estão morrendo de outras doenças, o PCR é uma mentira e dá um resultado aleatório, assim o sujeito morre de câncer, mas dizem que foi o vírus”, afirmou.

Kii estava indignada com a situação, o novo estilo de vida que se formou na sociedade, o fato da pandemia estar afetando a agenda escolar das crianças, provocando solidão, depressão e crise econômica que, para ela, não faz nenhum sentido.

“Há pessoas morrendo de influenza, mas isso não é uma grande questão. No ano novo, centenas de idosos morrem engasgados com mochi (bolinho de arroz glutinoso), mas isto também não é relevante. E as milhares de pessoas que morrem de câncer por ano? O governo não faz nada a respeito. Por que só com o coronavírus existe esta reação?, indagou.

Sugimura foi mais além ao opinar sobre o caso.

“Não há provas da existência do coronavírus. Não há artigos científicos que comprovem que as pessoas pegam este vírus e ficam doentes. O PCR é uma fraude. Estão enganando as pessoas para ganhar muito dinheiro em cima disso”, sugeriu.

Para Sugimura, a realidade está baseada em uma grande teoria da conspiração.

“Isto começou na China com o objetivo de controlar a população. Tudo isto está sendo feito para controlar as pessoas e não vai parar, vai apenas piorar, a menos que a gente se una para combater”.

Eu não quis entrar em detalhes.

HOSTILIZAÇÃO

Depois que Kii me contou que tem quatro filhos — três meninas e um menino entre 10 e 18 anos —, eu quis saber mais. Como não acredita na pandemia, ela tem passado para as crianças ideias que vão na contramão do que a escola, o governo e cientistas dizem com relação as medidas preventivas.

“Eu digo a eles para não se preocuparem com o corona e tentar ficar sem máscara na medida do possível, mas você sabe, a escola obriga a usar. No trem eles não usam, mas na sala de aula, se não usarem, não podem assistir a aula”.

A líder do grupo faz exatamente o o que ensina aos filhos e diz que não se importa com os olhares condenatórios em espaços públicos.

“Eu ando de trem todos os dias sem máscara, não tenho problema com isto. Tem gente que troca de lugar, me olha feio. Como não vejo TV e esqueço o que está acontecendo, as vezes levo um susto ao sair na rua. Não entendo esta obediência dos japoneses”, diz.

Quis saber se eles não são hostilizados nos protestos, já que estão indo contra o senso comum. Kii contou que tem reunido mais pessoas, justamente por causa da segurança, mas no geral, é tranquilo.

“Se alguém me xinga na rua, eu apenas sorrio. Se perguntam o que eu estou fazendo, eu digo que sou contra o ‘novo normal’, converso sobre o assunto e entrego os panfletos”.

“Outro dia uma senhora filipina me entregou um envelope”, ela tirou da bolsa e mostrou três notas de ¥1 mil, sorrindo. “Ela disse para a gente continuar se esforçando. Há pessoas que nos falam que estavam esperando por este tipo de movimento, que também são contra as medidas preventivas. Para os que nos culpam e nos mandam morrer, eu só sinto pena. São vítimas, pobres coitados enganados por esta farsa”.

INFORMAÇÕES FALSAS

Depois da entrevista, fui embora com os meus panfletos e pronta para fazer o que faço de melhor: investigar.

Diante de tantas informações e teorias, ficou difícil ter qualquer tipo de reação imediata, pois não havia me informado sobre as alegações deles e só sabia que as fontes eram canais negacionistas no Youtube, que produzem este tipo de conteúdo.

Ao analisar os panfletos, me deparei com uma série de informações que parecem ter circulado o bastante pelas redes sociais. Uma das folhas afirmava que a máscara faz respirar menos oxigênio e mais dióxido de carbono, aumentando a proliferação de bactérias e enfraquecendo o sistema imunológico.

Material informativo do grupo que protestava contra o coronavírus em Tóquio

Ao pesquisar esta informação, fui bombardeada por uma série de matérias e entrevistas com infectologistas dizendo que se trata de uma notícia falsa, que circulou através de vídeos no Youtube e foi compartilhada milhares de vezes.

Os especialistas explicaram que as máscaras possuem filtros que possibilitam a troca do ar e impedem a passagem de partículas maiores. Nem as máscaras cirúrgicas e nem as de pano são capazes de prejudicar a respiração ou causar dano ao organismo do usuário.

Esta notícia falsa específica causou muita preocupação, por ser uma desinformação capaz de impedir que as pessoas tomem um dos cuidados mais básicos para evitar a disseminação do vírus.

Outra informação que chamou atenção no material do grupo foi sobre as vacinas. Durante a conversa na cafeteria, Sugimura e Kii riram ao falar no assunto, afirmando que não sabiam do que se tratava a vacina, já que o vírus não existe.

O panfleto alerta sobre a vacina de RNA, afirmando que poderia alterar o DNA do usuário e por isso a confiabilidade era duvidosa. O material também traz um dado sem fonte: “se toda a população japonesa for vacinada, pelo menos 270 mil pessoas devem apresentar efeitos colaterais graves”.

O rumor sobre as vacinas de RNA também foi refutado por checagens de fake news. Uma das checagens, realizada pela BBC News Brasil, reforçou as declarações de vários cientistas de que a vacina é incapaz de causar alterações no DNA humano. E o funcionamento é simples: a vacina faz o organismo produzir uma proteína existente no vírus, fazendo com que o sistema imunológico consiga produzir anticorpos adequados.

O material explicativo defende as ideias do grupo e tenta convencer a população a ignorar as medidas preventivas, recusar o exame PCR e vacinas.

Com relação ao PCR, a informação de que o criador do teste, Kary Mullis, declarou que o exame é incapaz de detectar a presença de vírus, é usada para fortalecer a ideia de que se trata de uma fraude.

O problema é que essa informação também não é verdadeira.

Mullis faleceu em agosto de 2019, meses antes da pandemia e, por isto, não poderia ter dado nenhuma declaração específica sobre o novo coronavírus. Um vídeo do cientista, em uma palestra de 1997, foi utilizado nas páginas dos negacionistas como prova de que Mullis disse que o PCR não mostra se a pessoa está doente.

De fato, há este vídeo em que o cientista faz a seguinte afirmação em dado momento: “O teste PCR é apenas um processo usado para fazer muita coisa a partir de alguma coisa. Ele não diz se a pessoa está doente ou se o que a pessoa tem pode lhe fazer mal”.

A declaração é verídica, mas foi retirada do contexto. Neste vídeo, Mullis se refere as características do teste com relação ao vírus HIV, tema da palestra e com comportamento bem diferente do coronavírus.

O grupo pode estar colocando pessoas em perigo ao repassar informações que não foram adequadamente verificadas. No entanto, não senti que estão agindo de má fé. A única conclusão que consegui tirar dessa experiência é de que precisamos ter cuidado com as informações que escolhemos absorver na internet.

Se você se deixar envolver por um tipo de teoria ou informação de forma frequente, trabalhando determinadas ideias na sua mente que, por um motivo ou outro pareçam fazer sentido, corre-se o risco de sofrer uma lavagem cerebral na medida em que mais e mais conteúdo relacionado é consumido.

Depois que a crença já se fixou e novos conteúdos surgem, fica cada vez mais fácil acreditar sem procurar saber se a fonte da informação é confiável. A longo prazo, temos um devaneio capaz de mobilizar pessoas com seriedade em prol de uma causa que não existe.

Nesse mar de informações e notícias falsas, todo cuidado é pouco.

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Autor: Ana Paula Ramos

Jornalista e escritora, Ana Paula tem sete anos de experiência no Japão, atuando como repórter na comunidade brasileira e como freelancer. Ela é a fundadora do Japão sem Tarjas e criadora do grupo "Por que você também não faz?", que realiza mutirões de limpeza em praias no Japão. Em outubro de 2020, publicou o seu primeiro livro, "O Oitavo Andar", um suspense que se passa na cidade de Gramado e está disponível na Amazon.

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