Japão: a polêmica do professor que negou o sonho de uma aluna de ser youtuber: “Não pode, vá estudar”

Uma menina de escola primária no Japão perguntou ao pai, Tsukasa Chiba, de 40 anos, se era errado ser youtuber.

O assunto divulgado no blog pessoal de Tsukasa repercurtiu na internet. Segundo ele, o professor perguntou aos alunos quais eram os sonhos para o futuro e depois que algumas crianças disseram que queriam ser youtubers, o professor surpreendeu com uma resposta negativa:

“Youtuber não pode, vocês têm que estudar”.

Tsukasa não gostou da atitude do professor e desabafou.

“Ela me perguntou porque não podia ser youtuber e eu também não sei. Acho que as crianças podem sonhar com o que quiserem. Não há sentido em negar o sonho de uma criança, ainda mais sem dar explicação alguma”, criticou.

Com a difusão dos canais digitais, a rede social de vídeos se tornou comum no dia a dia de muitas famílias. Não faltam canais destinados ao público infantil, inclusive com vídeos de outras crianças, o que pode estar influenciando o público.

Uma pesquisa realizada no ano passado pela empresa Benesse Corporation mostrou que o sonho de ser youtuber se tornou comum para muitas crianças. Entre os meninos, este desejo apareceu em 2° lugar na lista de sonhos e entre as meninas, em 3° lugar.

Popular entre as crianças, o sonho, no entanto, passa longe do desejo da maioria dos pais no Japão. 

Segundo uma reportagem do Portal J-Cast, a emissora TBS realizou uma enquete que mostrou que 75% dos pais seriam contra se os filhos dissessem que querem ser youtubers.

O motivo relatado foi a preocupação com as dificuldades de transformar a prática de vídeos em uma profissão rentável. “Não há garantia alguma de que as pessoas vão acompanhar o canal”, disseram alguns pais.

De ¥6 mil a ¥600 milhões

A carreira no Youtube é repleta de incertezas. O portal J-Cast conversou com alguns pessoas que possuem canais e mostrou casos em que a produção de conteúdo se transformou em uma renda alta e outros que não deram tão certo na prática.

O youtuber japonês Max Murai, de 39 anos, que produz vídeos relacionado a games e produtos, chegou a lucrar ¥600 milhões por influência da rede social, mas tem uma opinião realista sobre ser youtuber.

Canal do Max Murai, um youtuber bem-sucedido no Japão

“É uma carreira com muitos altos e baixos. Não é fácil trabalhar com isto, mas qualquer um pode se desafiar”, diz.

Há quem tenha se desafiado, mas ainda está longe de obter os resultados desejados. O autor do canal Inonaka Torabera é um ex-militar das Forças de Autodefesa do Japão. Ele largou a carreira para se dedicar ao canal, que fala sobre curiosidades dessa profissão e tem publicado vídeos duas vezes por semana.

“O máximo que consigo ganhar em um mês é ¥6 mil. Não posso viver com isto, acabei arrumando um emprego em uma empresa”, conta.

Com um pouco mais de 2 mil seguidores e quase sem renda, Inonaka Torabera teve que arrumar um novo emprego

Nem mesmo ser famoso é garantia de sucesso neste meio. O comediante Hiroyuki Kohori, da dupla 2Cho-Kenjyu iniciou o canal “Hedorotton Channel” e vem postando vídeos três vezes por semana.

No entanto, até o momento, o canal reuniu cerca de 3 mil seguidores e os vídeos não possuem muito mais do que 100 visualições, algo muito difícil de se converter em renda.

“Mesmo quando um vídeo é reproduzido 100 mil vezes, a renda fica em torno de ¥5 mil e ¥10 mil. São poucos os que conseguem viver disto”, diz a jornalista de TI Akiko Takahashi.

Mesmo assim, será que o sonho das crianças deve ser desmotivado?

O comediante Atsushi Tamura disse que deixaria o filho tentar, mas não ajudaria em nada. “Ele poderia fazer um canal, mas eu não ia colaborar nem com apoio, dinheiro ou ideias”.

Masa Fukuda, do grupo de comédia Sanji no Heroine, tem uma visão diferente:

“É um trabalho difícil, mas outras profissiões também são difíceis, como advogado ou contador. Se não se empenhar em alcançar o que deseja, não irá conseguir. Eu acho que a pessoa que quer deve tentar e ver por si própria as dificuldades”.

Autor: Ana Paula Ramos

Jornalista e escritora, Ana Paula tem sete anos de experiência no Japão, atuando como repórter na comunidade brasileira e como freelancer. Ela é a fundadora do Japão sem Tarjas e criadora do grupo "Por que você também não faz?", que realiza mutirões de limpeza em praias no Japão. Em outubro de 2020, publicou o seu primeiro livro, "O Oitavo Andar", um suspense que se passa na cidade de Gramado e está disponível na Amazon.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s