Como um jogo online resultou no sequestro de uma menina de 11 anos no Japão

Aoi é uma menina japonesa de 11 anos, que está no 6° ano de uma escola primária. Ela costumava brincar com os amigos na rua depois da escola, mas acabou se apegando a um jogo online que acessa pelo smartphone.

O jogo popular de batalhas é para a faixa etária de 15 anos, mas a versão para smartphone diz que pode jogar a partir de 12 anos. No caso de Aoi, a mãe falou que poderia jogar quando estivesse na sala e então ela começou a se divertir com o jogo no ano anterior.

Segundo uma reportagem do portal President Online, foi o inocente e divertido jogo que fez com que Aoi acabasse nas mãos de um criminoso.

Veja o relato:

Recentemente eu comecei a utilizar o bate-papo no jogo e então conheci um moço mais velho, que é muito bom no jogo e muito gentil, sempre me ajuda quando eu preciso.

Desde o início do ano, minha mãe tem me incomodado para estudar mais. Ela diz que logo estarei no ensino ginasial e se não estudar eu vou ficar para trás, que não posso ficar apenas me divertindo.

O problema é que eu não gosto muito de estudar. E não entendo o que ela diz. Vou ficar para trás com relação a quem? Ela é temperamental e fica brava de acordo com o humor do momento. Quando está ocupada ou irritada, eu procuro não chegar perto.

Nestes momentos, prefiro ficar trancada no quarto, finjo que estou estudando e começo a jogar no celular. Quando estou jogando, esqueço as coisas ruins e me divirto de verdade.

Outro dia, enquanto estava jogando escondida no quarto, meu pai abriu a porta de repente, viu o que eu estava fazendo e ficou bravo.

Achei que a minha mãe ia me defender, mas ela ficou ainda mais brava, disse que se eu continuasse assim, ia me tirar o celular. Eu achei injusto, pois ela mesma não sai do LINE (aplicativo de mensagens) na hora da janta. Ela pode, mas eu não.

Eu disse isso para ela e fechei a porta do quarto um dia. Foi muito chato. Senti que o pai e a mãe estavam me vigiando e parei também de jogar na sala, como fazia antes.

“O moço gentil do jogo me chamou para sair”

Continuei com a rotina de jogar todos os dias e as conversas com o moço do jogo evoluíram. Parei de falar apenas sobre o jogo e comecei a contar sobre os problemas que tinha na escola e em casa.

Um dia, ele me mandou uma mensagem dizendo para a gente jogar, só nós dois. Depois ele perguntou onde eu morava, disse que tinha carro e que podia me buscar perto de casa e também podia me escutar sobre os meus problemas.

Eu pensei que seria divertido a gente conversar enquanto jogava. Eu podia melhorar no jogo, ele podia me ensinar algumas técnicas. Eu também pensei que poderia me gabar dizendo que tenho um amigo mais velho.

Os meninos da minha classe são muito infantis e não consigo conversar direito. O “B”, amigo que sai bastante comigo, está ocupado no momento com os estudos para entrar na escola ginasial e não pode mais sair mais.

Outra coisa que eu pensei é que se voltasse cedo para a casa, meus pais também não ficariam bravos. E então eu disse para a minha mãe que ia encontrar uma amiga e fui até o parque onde combinamos o encontro.

DESESPERO

Como Aoi não voltou para a casa no horário de sempre, os pais ficaram preocupados e começaram a rodar a vizinhança atrás da filha.

Eles não encontraram Aoi em lugar algum e descobriram pelos amigos que ela não estava com nenhum deles. Depois disso, foram na polícia denunciar o desaparecimento.

Os dois passaram a noite acordados, preocupados e esperando notícias sobre a filha.

Na segunda manhã após o desaparecimento, a polícia comunicou os pais que verificou as câmeras de segurança da região e viu imagens de uma menina que parecia ser Aoi, caminhando ao lado de um homem.

Ao verificar várias câmeras, os policiais identificaram o carro e a residência do suspeito. Ao observar o local, viram o homem voltando para a casa de carro e no banco de trás estava Aoi, abraçada no próprio corpo e tremendo.

A menina voltou em segurança para a casa e os pais decidiram não brigar com a filha.

“Eu e o meu marido nunca jogamos jogos online. Soubemos depois do ocorrido que ela conversava com um estranho e trocou seus contatos com ele. Eu só queria perguntar uma coisa a ela, por que havia decidido encontrar um homem estranho”.

A resposta de Aoi, no entanto, surpreendeu seus pais.

“Ele não era um homem desconhecido. Ele era meu amigo, nós jogávamos juntos todos os dias”.

ALERTA

Photo by Jerry Wang on Unsplash (imagem ilustrativa)

O caso de Aoi serve de alerta para muitas famílias cujos filhos estão sujeitos a conhecer pessoas estranhas pela internet. É possível acabar vítima de crimes sexuais, sequestros ou assassinato.

De acordo com a reportagem, a maioria dos casos envolve homens entre 30 e 59 anos, que conhecem as vítimas através de redes sociais ou jogos online.

Um caso ocorrido em 2019 reforça o perigo deste tipo de encontro que começa no ambiente virtual. Uma menina de 11 anos de Osaka, que queria fugir de casa, conheceu um homem pelas redes sociais e acabou confinada na casa dele.

Ela o encontrou em um parque próximo e foi levada até a província de Tochigi, a quae 600 quilômetros de distância. A menina conseguiu sair correndo sem nem calçar os sapatos e pediu ajuda em um posto policial, onde foi acolhida em segurança.

Alguns estudantes que querem fugir de casa publicam no Twitter hashtags que anunciam o desejo de fuga ou que querem a ajuda de algum adulto que arrume um lugar para ficar e comida.

No entanto, isto atrai a atenção de muitos criminosos. A polícia japonesa investigou o caso de um menina do 2° ano de uma escola ginasial que havia desaparecido. 

Ao verificar as redes sociais dela com a colaboração dos pais, descobriu que cerca de 10 minutos depois de ter postado que gostaria de fugir de casa, 20 homens responderam oferecendo ajuda.

Um caso que mostra como há criminosos atentos na internet, em busca de crianças e adolescentes que estejam passando por algum momento de vulnerabilidade.

Gostou? Siga a página Japão sem Tarjas no Facebook e Instagram (@japaosemtarjas) e acompanhe novas publicações.

Autor: Ana Paula Ramos

Jornalista e escritora, Ana Paula tem sete anos de experiência no Japão, atuando como repórter na comunidade brasileira e como freelancer. Ela é a fundadora do Japão sem Tarjas e criadora do grupo "Por que você também não faz?", que realiza mutirões de limpeza em praias no Japão. Em outubro de 2020, publicou o seu primeiro livro, "O Oitavo Andar", um suspense que se passa na cidade de Gramado e está disponível na Amazon.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s