Os japoneses com mais de 40 anos sustentados pelos pais: “Quando minha mãe morrer eu me mato”

Foto Nikkan SPA! (a foto foi tirada com um modelo, os entrevistados não quiseram revelar suas identidades)

O problema das pessoas que vivem sem sair de casa no Japão, os chamados “hikikomoris”, não se limita aos jovens.

Recentemente, uma nova questão tem ganhado visibilidade na sociedade japonesa. O problema das pessoas que já passaram de 40 anos e continuam vivendo isoladas em casa, sem trabalhar e sendo sustentadas por pais idosos.

Segundo uma reportagem do portal Nikkan SPA!, este assunto já ganhou até nome: é chamado de “8050 Mondai”, pois se refere geralmente aos filhos de 50 anos, que vivem da aposentadoria dos pais de 80.

O portal apresentou dois casos graves, de pessoas que por algum motivo acabaram de fora do sistema de trabalho, não encontram perspectivas para se sustentar sozinhos, sofrem depressão e ameaçam suicídio caso a mãe venha a falecer.

Sustentado pela mãe e o irmão

Naoki Kawazoe* tem 44 anos e vive do dinheiro da aposentadoria da mãe e de um auxílio financeiro do irmão mais novo.

Naoki tem boa aparência e nos tempos de escola, diz que era popular entre as garotas. Ele também sofreu bullying e desenvolveu uma personalidade paranóica. Se ver pessoas cochichando, acredita que estão falando mal dele.

Por causa dos problemas sociais, Naoki desistiu do ensino médio na metade e não conseguiu realizar seu plano de se tornar um cabeleireiro. Depois dos 25 anos, passou a viver isolado na casa da mãe.

De início, vivia com a mãe de 68 anos, que administrava um bar. O irmão o chamou para viver na região de Kanto e ele foi na época. Naoki arrumou uma namorada e foi morar na casa dela, mas desde que se separou, voltou a viver com a mãe.

“Eu tenho depressão, não consigo mover nem o meu corpo e nem a minha mente. Quando a minha mãe falecer, não terei mais dinheiro e então vou me matar”, disse.

Yuya Hamada, consultor licenciado de seguro social, diz que pessoas como Naoki, que vivem do sustento da família apesar da idade, precisam planejar as finanças para depois da morte dos pais e garantir assim condições de vida no futuro.

“No geral os pais e os filhos tem consciência de que não podem seguir deste jeito. Quem está nesta situação tem consciência disto, muitas vezes não consegue nem pensar na morte dos pais. Quando entro neste assunto, muitos ficam nervosos e a tendência é adiar a conversa”, explica.

‘Hikikomori’ de 53 anos

Toshiaki Hatano*, de 53 anos, vive com a mãe e o padrasto. Depois da formatura no ensino médio, ele teve várias experiências de trabalho, mas nada deu certo.

Depois dos 40 anos, Toshiaki passou a se isolar em casa. Ele diz que o padrasto é violento com a mãe e eles não se dão bem desde que Toshiaki era jovem e por isto não se falam.

Ele conta com a ajuda da mãe para as despesas de alimentação e as contas da casa. Toshiaki aposta no mercado de câmbio e ganha de ¥500 a ¥10 mil por dia, mas diz que também tem muitas perdas neste sistema.

“Se minha mãe morrer, meu padrasto me expulsa de casa. Penso que preciso juntar dinheiro agora, mas também sofro muitas perdas financeiras no câmbio. Se não conseguir juntar dinheiro a tempo, só me resta o suicídio”, diz.

Sobre esta situação, o especialista em bem-estar social, Morisada Fukaya, diz que é um assunto urgente ao Japão pensar em uma estrutura que possibilite a essas pessoas participar da sociedade e garantir uma renda, mesmo que permançam isoladas em casa.

“Nesta geração de agora, há muitas formas de ganhar dinheiro mesmo que não encontre outras pessoas. No entanto, quem tem medo de se relacionar com os outros tende a não ir bem em nada do que faz e acaba podendo contar apenas com a família”, explicou.

Este problema também é responsável pelos casos de filhos que ocultam o corpo dos pais idosos que morreram em casa.

“Além de perder o dinheiro da aposentadoria dos pais, muitos ficam com vergonha de registrar o óbito na prefeitura e ter a situação de desemprego e isolamento descoberta. Acho que por vários motivos há pessoas que preferem deixar o corpo em casa”, diz.

Planejamento financeiro

Photo by Senad Palic on Unsplash

Yuya Hamada é um planejador financeiro, que atua com outros sete especialistas na área. Eles atendem consultas de pessoas nesta situação, ajudam a fazer planos e a prevenir os problemas financeiros depois da morte dos pais idosos.

Hamada conta que há muitos casos “5080” (de filhos de 50 anos sustentados por pais de 80) entre as pessoas que buscam por consultas.

“Se houver a possibilidade de receber a aposentadoria, nos calculamos ¥70 mil a partir dos 65 anos, então precisa de mais ¥50 mil. Se viver até 81 anos, são ¥9,6 milhões. Se pensar ainda em uma reserva médica, ¥12 milhões”.

Os especialistas calculam os bens da pessoa, a casa, o que os pais irão deixar para ver como calcular a renda futura. Se a pessoa não tiver bem nenhum, o planejamento é feito com os valores de auxílio subsistência, pensão por invalidez e outros sistemas públicos.

*Nomes fictícios

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Autor: Ana Paula Ramos

Jornalista e escritora, Ana Paula tem sete anos de experiência no Japão, atuando como repórter na comunidade brasileira e como freelancer. Ela é a fundadora do Japão sem Tarjas e criadora do grupo "Por que você também não faz?", que realiza mutirões de limpeza em praias no Japão. Em outubro de 2020, publicou o seu primeiro livro, "O Oitavo Andar", um suspense que se passa na cidade de Gramado e está disponível na Amazon.

5 pensamentos

  1. Seria normal que filhos normais quando crescem, terão em buscas de sua própria sobrevivência é a Lei da natureza, a fase de crescimento de um filho é muito importante na educação familiar.

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  2. A culpa é dessas próprias mães que não colocam os seus filhos para fazerem cursos a fim de aprenderem novas habilidades e incentivarem a sua independência. Não há problema algum em viver com os seus próprios pais, mas sim quando o mesmo não ajuda com nada em casa.

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  3. O sistema capitalista é o único e verdadeiro culpado por esse tipo de anormalidade na vida dos seres humanos. Lutemos por nossas vidas, lutemos pelo sistema socialista.

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