Pandemia leva jovens universitárias aos cabarés no Japão: “não tem outra opção de trabalho”

Estudantes que precisam complementar a renda estão optando pela prostituição por falta de oportunidades de trabalho temporário.

Imagens Unsplash (ilustrativas)

A pandemia, as restrições e os constantes estados de emergência que o Japão enfrenta tem trazido consequências também para os estudantes de universidades.

De acordo com uma reportagem do portal Bunshun Online, em um cenário de aulas online, isolamento social e falta de oportunidades de trabalho temporário, garotas que vieram para a capital japonesa para estudar estão complementando a renda nos cabarés.

O portal contou a história de Sakura*, uma jovem de 18 anos que veio recentemente de uma cidade de interior para Tóquio em busca de uma nova vida no campus universitário. A realidade, no entanto, passou longe de suas expectativas.

No fim do ensino médio, ela sofreu com os atrasos nas aulas por conta da pandemia, mas acabou ganhando mais tempo. Isto permitiu focar nos exames. Sakura foi aceita em uma universidade melhor do que tinha imaginado, decidiu o apartamento novo na capital e se mudou para Tóquio no mês de março.

“Eu imaginava que a vida na universidade seria bem diferente. Pretendia fazer amigos com gostos parecidos, estudar juntos, passear e frequentar os clubes de atividades. Era para encontrar um trabalho em um restaurante ou em uma cafeteria e então pagar as despesas cotidianas com esta renda”, contou.

A vida em Tóquio começou com empolgação, mas rapidamente se transformou em desespero. As amizades ficaram comprometidas pelas aulas online, ela não conseguiu entrar em clubes de atividades e as oportunidades de trabalho temporário acabaram limitadas.

A estudante vem de uma família sem muitos recursos financeiros e combinou com os pais que eles pagariam a mensalidade, enquanto ela deveria arcar com o aluguel e outras despesas cotidianas.

“Por causa do coronavírus os restaurantes e cafés fecham cedo e não há vagas. Quando há, o trabalho é para 3 ou 4 horas e a renda não serve nem para pagar o aluguel. Por fim, encontrei um trabalho que oferece renda alta em um cabaré”, explicou.

O cabaré exigiu que Sakura arrumasse vestidos e penteados de acordo com as normas do estabelecimento. Ela começou a trabalhar com um traje emprestado, mas logo teve que comprar suas próprias roupas.

“A questão dos vestidos me obrigou a arrumar uma renda extra além do cabaré. Então eu usei um site de encontros para conhecer um sugar daddy e cobrir estes gastos”, disse.

Serviço Delivery Heath

Imagem Unsplash (ilustrativa)

Miku* é uma jovem japonesa de 18 anos, apaixonada pelo mundo da música. Nos tempos de escola, costumava juntar dinheiro para ir em shows e quando pensou sobre carreira, decidiu que queria atuar no meio.

A jovem escolheu estudar em uma escola técnica focada em eventos, organização e bastidores. Os pais foram contra, mas ela seguiu o propósito mesmo assim. O estudo não ocorreu como planejado e ela acabou decepcionada e com dívidas.

“O custo foi de ¥1,5 milhão e consegui um empréstimo. Eu entrei na escola, mas não havia entusiasmo. Eram 40 alunos e eu não via nem metade deles. O professor disse que o ramo dos eventos está devastado pela pandemia e que não há perspectivas de futuro. Eu cheguei a conclusão de que tinha cometido um erro”, relatou.

Miku largou os estudos, mas precisou lidar com a dívida de ¥1,5 milhão. Ela entrou no “Deri Haru” (Delivery Health), um serviço de prostituição por agendamento via telefone ou e-mail. A jovem conta que começou sem experiência e sem muitas orientações, bastava ir até o local indicado pelo cliente.

“O serviço é muito ocupado. Vou em muitos hotéis durante a tarde e a maioria dos clientes está trabalhando remotamente. Alguns me dizem que são da indústria da música e que podem me oferecer um emprego se encontrá-los no particular. Tem muito disso”, diz.

A jovem disse que um cliente sugeriu que ela atuasse nas “soaplands”, as casas de banho eróticas para relações sexuais sem penetração.

“Um cliente me recomendou e fui pesquisar. Não é muito diferente do que eu faço. Tive uma entrevista esses dias e começo na semana que vem.”

Em tempos de pandemia, a vida universitária que costumava gerar grandes expectativas tem se mostrado muito diferente do esperado. Sem perspectivas de estudos, aulas presenciais, amigos e boas oportunidades de trabalho, muitas garotas que mal saíram da adolescência estão se sustentando com as casas noturnas, os bordéis e serviços sexuais variados.

*Os nomes são fictícios

*Siga a página Japão sem Tarjas no Facebook (clique aqui) e no Instagram (@japaosemtarjas) e acompanhe novas publicações.

Autor: Ana Paula Ramos

Jornalista e escritora, Ana Paula tem sete anos de experiência no Japão, atuando como repórter na comunidade brasileira e como freelancer. Ela é a fundadora do Japão sem Tarjas e criadora do grupo "Por que você também não faz?", que realiza mutirões de limpeza em praias no Japão. Em outubro de 2020, publicou o seu primeiro livro, "O Oitavo Andar", um suspense que se passa na cidade de Gramado e está disponível na Amazon.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s