Um ano de “Por que você também não faz?”: como juntar o lixo da praia transforma pessoas

Uma ação espontânea resultou em um grupo de brasileiros no Japão, que passou a promover consciência, hábitos melhores e amor ao meio ambiente.

Ações de limpeza de brasileiros em praias e rios do Japão, em Shizuoka, Aichi e Gunma.

Foi em agosto de 2020 que tudo começou. Eu tomei a iniciativa de passar duas semanas limpando uma praia em Hamamatsu (Shizuoka) e gerando consciência com uma plaquinha nas costas que inspirou o nome do grupo: “Por que você também não faz?”. 

Relatei a experiência em um artigo, que gerou reação e o grupo nasceu, tímido, motivado e cheio de propósito. Mas este texto não é para contar a história do grupo, que junto com o aniversário de um ano, atingiu a marca de mil membros. O objetivo aqui é falar um pouco sobre a transformação.

Quando comecei a recolher o lixo nas praias e também em parques, algo passou a se transformar dentro de mim.

Hoje, um ano depois, consigo perceber este processo com clareza e sei que não fui a única. Não comecei a coletar o lixo por ter este hábito já desenvolvido, foi uma ação espontânea e motivada pela revolta de ver o acúmulo de plástico no mar. Antes eu apenas reclamava, enfurecida com as pessoas que abandonam lixo na beira da praia. Hoje eu sei que posso agir e que este problema também é meu. É de todos nós.

E mais do que isto, antes eu culpava as pessoas que vão curtir a praia e abandonam o lixo. Só que todo este processo de ação gerou interesse e aprendizado, até que finalmente eu entendi que quem deixa o lixo na praia de fato contribui com o problema, mas está longe de ser o grande responsável pela situação catastrófica atual, com 14 milhões de toneladas de plástico no fundo dos oceanos (estudo da Agência Científica Nacional da Austrália).

Quando a gente começa a montar este quebra-cabeça, entramos em uma nova etapa do processo de consciência. E é uma mudança sem volta, uma transformação interna que quando atingida, não é mais possível voltar atrás e voltar a conviver com o abandono de lixo como se fosse invisível. Mas se você está lendo este texto e nunca juntou lixo na vida, não tenha medo de começar.

A transformação interna é maravilhosa. É o início de uma nova vida em que você tem consciência e você ajuda os outros a chegar lá. O estado em que o mundo se encontra, a perspectiva de ter mais plástico do que peixes nos oceanos em 2050, vai continuar machucando e gerando tristeza. Mas também é um combustível motivador, que faz você perceber o quanto é importante agir e passar essa mensagem adiante.

Agora, vou relatar um pouco desta transformação pessoal e o que significa de fato. Convido a todos a se transformar também. Basta dar o primeiro passo e tudo começa a mudar e a melhorar.

1. O problema está no consumo

Este foi o aprendizado mais importante que eu absorvi desde que comecei a juntar lixo e também a estudar sobre a questão ambiental. Estava iludida achando que o plástico que eu via na praia foi deixado recentemente por alguém. Na verdade, muita coisa que eu mesma tirei da areia eram itens de outros países, como China, Coreia do Sul e Vietnã. Muitas garrafas sem rótulos que deviam estar há décadas no mar.

Eu ficava pensando que estava tocando no lixo que provavelmente foi consumido por alguém que já morreu há muito tempo. E as embalagens mais recentes, eu me perguntava o quão surpresos os consumidores ficariam se soubessem que o frasco de detergente que usaram muitos anos antes agora está em uma longa e duradoura jornada no mar.

O problema é que depois de consumir o plástico e colocar na lixeira de casa, a gente perde o controle dele. Hoje tenho dificuldade de entender porque as pessoas não relacionam as sacolas que pegam no supermercado com as sacolas que encontram na areia da praia ou nos canteiros da avenida. É um ciclo diferente em cada país, mas com resultados similares.

O plástico não reciclado vai para um depósito, um aterro, se acumula, voa com a ação dos ventos, vai para a rede de esgoto, para o rio e desemboca no mar. Quando estava na Suécia no início do ano, que é um país exemplo no combate ao consumo de plástico, eu me espantava ao ver os terrenos próximos aos mercados cheios de lixo. Meu namorado sueco não sabia dizer a origem, mas chegamos a mesma conclusão: voou de algum lugar.

A melhor forma de lidar com esse problema é reduzindo o consumo. Tenho me interessado por itens de bambu, como pasta de dentes e artigos de cozinha, redinhas que vendem na Amazon para colocar as frutas do mercado, sacolas ecológicas e tudo o que eu posso fazer para substituir o plástico descartável na minha rotina. 

Se pensar bem, é insano. A gente usa um plástico por minutos, horas, dias, semanas ou meses. Depois, a embalagem, a garrafa, a sacola vão ficar por aí por uns 400 anos e se transformar em microplástico. 

É bastante tempo para ir parar no fundo do mar e ficar lá muito depois do consumidor já ter ido embora desse mundo.

2. O lixo não é invisível

Lixo abandonado no Japão. Foto: Johannes Ahlström

Não sei se algum dia foi, mas hoje não é mais. Criei uma visão ultrasônica que enxergo o lixo por onde eu ando. Antes eu enxergava mais o plástico na praia, hoje eu vejo por todos os lados. Nem sempre consigo limpar, mas fico pensando estrategicamente para que eu possa voltar em determinado lugar com sacolas e então limpar.

Para a maioria das pessoas que nunca juntou o lixo abandonado do chão, esses resíduos seguem invisíveis. Quando muito notam, reclamam do relaxado que não colocou na lixeira. Só que o lixo que não pertecence a ninguém automaticamente passa a pertencer a todo mundo. Quanto mais pessoas ficarem conscientes disso, mais perto nós chegamos de uma solução definitiva.

3. Minha vida melhorou 200%

A experiência, o aprendizado e a consciência me transformaram em uma pessoa melhor em todos os sentidos. E mais do que isso, melhoraram a minha vida, as minhas conquistas, a minha motivação diária e como eu enxergo e interajo com o mundo ao meu redor. Ter tomado a iniciativa de juntar o lixo me fez perceber que basta eu ter iniciativa para as coisas acontecerem.

O que nos separa dos nossos objetivos, sonhos e realizações é o nosso nível de iniciativa. Você quer começar algo e nunca dá o primeiro passo, não se sente confiante, fica esperando o momento certo, o dia ideal, a hora em que os planetas estarão alinhados. Quando você compreende a mensagem de que qualquer coisa está ao seu alcance, desde que dê um primeiro passo e então outro e mais outro, sua vida começa a melhorar aos poucos.

Tudo começou com uma garrafa pet que voava na areia e eu coloquei em uma sacola. Hoje, não deixo a inércia e a reclamação ditarem as regras do jogo da minha vida. Eu apanho a garrafa e me sinto grata por ter mãos para fazer isso. A vida tem sentido quando você sabe que está fazendo algo para melhorar o mundo e se sente grato por isso. E a gratidão é uma força poderosa, que coloca você em um ciclo de abundância e de oportunidades.

No fim das contas, você se surpreende com a capacidade da natureza de ser grata e retribuir o bem que você faz a ela.

*Participe do grupo: clique aqui. E siga a página do Japão sem Tarjas (veja aqui) para acompanhar novas publicações.

Autor: Ana Paula Ramos

Jornalista e escritora, Ana Paula tem sete anos de experiência no Japão, atuando como repórter na comunidade brasileira e como freelancer. Ela é a fundadora do Japão sem Tarjas e criadora do grupo "Por que você também não faz?", que realiza mutirões de limpeza em praias no Japão. Em outubro de 2020, publicou o seu primeiro livro, "O Oitavo Andar", um suspense que se passa na cidade de Gramado e está disponível na Amazon.

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