A história por trás da história: como dois gatos resgatados por uma ONG brasileira no Japão acabaram virando livro

Essa história começou em negligência e terminou em amor. “O Diário da Minha Vida Ingrata” é uma fantasia criada com um pano de fundo real que você irá conhecer agora.

Jornada que começou no Japão e terminou na Suécia inspirou o livro. Fotos: arquivo pessoal

Todos os anos o Ministério do Meio Ambiente do Japão divulga o número de cães e gatos que foram mortos nos chamados “hokenjo” (Centro de Controle de Animais). Em 2020, mais de 23 mil pets que não encontraram um lar perderam suas vidas. Um verdadeiro massacre.

E cada vez que eu me deparo com uma notícia dessas, penso que a Sabrina e o Tobias – meus gatos resgatados pelo NPO Felinos Japan – escaparam por pouco desse destino cruel. Eles sobreviveram porque tiveram sorte. Mas milhares de animais por ano sofrem abandono e acabam sacrificados.

No meu trabalho de jornalista, é comum me deparar com uma infinidade de histórias e realidades distintas. No fim de 2018 eu tinha uma matéria sobre pets para fazer e isto me levou até o abrigo da ONG, que é administrada por um casal brasileiro na cidade de Iwata (província de Shizuoka). Não sabia nada sobre gatos e as dificuldades desse trabalho voluntário de resgates, mas conheci a dura realidade.

O abrigo recebe pedidos de ajuda diários para resgatar animais abandonados ou feridos. Ao mesmo tempo em que pessoas que adotaram ou compraram contatam a ONG com a intenção de se desfazer de seus pets. Os animais são descartáveis para muitos, somente os sortudos viram a famíia de alguém.

Eu morava em um apartamento que não permitia ter animais em Hamamatsu, mas manifestei meu interesse em ser lar temporário. Vivia sozinha, com a família no Brasil, o namorado na Suécia e trabalhando em casa. Uma companhia felina era realmente tudo o que eu precisava na época.

E não demorou para surgir uma oportunidade. Em fevereiro de 2019, a ONG me contatou com um pedido urgente. Uma brasileira que vivia na cidade de Toyoake (Aichi) tinha perdido o controle e estava com 14 gatos no apartamento e em situação de negligência. Ela seria despejada e se os animais não fossem resgatados em uma semana, acabariam somando às estatísticas apresentadas no início desse texto.

Eu entrei naquele dilema do apartamento proibido, mas pensei que poderia quebrar as regras por uma boa causa. Aceitei ficar temporariamente com dois gatos, fiz uma matéria para divulgar a causa e a ONG conseguiu resgatar todos e alguns foram levados ao abrigo. Dias depois, eles apareceram na minha casa com duas caixas transportadoras: os dois gatos malhados estavam desnutridos, assustados, gripados e cheios de vermes.

Eu olhei para o focinho deles e os nomes vieram na hora: Sabrina e Tobias. Naquele mesmo dia passei a dar os remédios para gripe com muita dificuldade e depois de alguns dias e do remédio de vermes, eles finalmente começaram a comer a ração. Os gatos foram melhorando dia a dia e a minha vida virou de cabeça para baixo (no bom sentido da bagunça).

Mas como essa história acabou em livro? Esse pequeno resumo é só o começo de uma longa jornada que começou no Japão e terminou na Suécia. E eu vou contar para vocês as viradas de chaves que fizeram eu transformar a vida real em arte e utilizar isso para uma boa causa: gerar renda para ajudar a ONG a resgatar outros animais.

O momento da perda dos gatos

A Sabrina na caixa transportadora. Essa imagem entrou no livro. Foto: Johannes Ahlström

Queria contar para vocês que a Sabrina e o Tobias chegaram nas minhas mãos e desde então foram felizes para sempre. Mas na verdade, esses dois gatinhos que começaram a vida em grande sofrimento deram muitas voltas até encontrar a felicidade definitiva.

Eu cuidei dos dois durante três meses em 2019. Em maio daquele ano, tinha uma viagem marcada para o Havaí. Eu ainda era lar temporário e acabei devolvendo a dupla ao abrigo. Já estava muito apegada, mas não sabia que eles tinham me fisgado de jeito. Pensei em pedir de volta quando voltasse da viagem e foi aí que eu acabei perdendo.

Duas ou três semanas depois, quando eu voltei, os gatos já não estavam no abrigo. Eles tinham ido para outra casa, estavam com uma nova família. Fiquei sem chão, pensando muito neles e em como fui tola de não oficializar a adoção. Eu incomodei a ONG atrás de notícias, queria saber sobre eles, queria de volta.

No meio do ano, recuperei as esperanças. Soube que eles não estavam se adaptando e não estava dando certo, pois um dos filhos do casal tinha medo dos gatos. Quando eles voltaram ao abrigo em agosto, não pensei duas vezes e adotei. Mas como vocês sabem, o Johannes, meu namorado que já morava na Suécia na época enquanto eu estava no Japão, teve que concordar. Eu estava sozinha, mas os gatos seriam nossos.

Não foi difícil, ele tem o coração mais mole do que o meu. O Johannes chegou a me visitar em Hamamatsu e conheceu os gatos, se apaixonou. Não precisamos nem discutir o assunto: estava decidido. Eu continuava no apartamento proibido e corria todos os riscos que não recomendo a ninguém, de multa e reforma, mas no fim deu tudo certo.

A ideia do livro veio pouco tempo depois. Em uma chamada de vídeo, o Johannes editava fotos dos gatos e encontrou uma muito charmosa da Sabrina. Ele fez esse comentário: “se a Sabrina fosse uma escritora, essa foto ia ficar na parte de apresentação da autora”. Na hora me deu um estalo: “por que não?”, eu pensei. “E se… e se a Sabrina virasse mesmo uma escritora?”.

E então o nome do livro já veio na minha cabeça. iria se chamar “O Diário da Minha Vida Ingrata”. Seria uma obra em formato de diário. A Sabrina encontraria um caderno perdido em casa e como é uma gata inteligente, usaria para contar sua própria aventura. Eu comecei a planejar a história a partir dessa ideia e toda a história real se tornou pano de fundo para a ficção.

Do Japão para a Suécia

Eu com a Sabrina e o Johannes com o Tobias. A primeira foto depois da mudança.

Em 2020, a pandemia começou e não demorou muito para eu ficar sem emprego. Sozinha no Japão com os gatos e no seguro-desemprego. Essa era eu em maio daquele ano, perdida, solitária, sem saber que rumo tomar. Mas lá no meu coração eu já tinha uma vontade crescente: ir morar com o Johannes na Suécia. Esse foi o empurrão que eu precisava para me organizar e partir para uma nova vida.

Mas as coisas podem ser bem difíceis quando você perde a sua renda e ainda tem dois gatos que precisam mudar de país com você. Eu logo comecei a pesquisar sobre os trâmites, fiz orçamento com a Nippon Express, uma empresa que podia transportar os gatos enquanto eu finalizava as burocracias da minha vida no Japão. Mas quase caí para trás: a brincadeira de mandar a Sabrina e o Tobias para a Suécia não sairia por menos de ¥400 mil (cerca de R$ 20 mil).

Aí eu lembrei que o Johannes concordou com a adoção e fui pedir ajuda para ele com os olhos cheios de lágrimas. Unimos nossas forças. Eu gastei minhas economias e ele mandou metade do dinheiro. Em dezembro daquele ano, a Sabrina e o Tobias partiram sozinhos para a Suécia. Mas foi uma viagem arriscada. Precisei da ajuda de um amigo para me levar de carro de Hamamatsu até Narita (cerca de 5 horas de viagem). Era o último voo da Lufthansa que transportava animais naquele ano e corria risco de cancelamento por causa da pandemia.

As vezes dá vontade de chorar e agradecer mesmo quando lembro de tudo isso. Eles fizeram escala em Frankfurt, na Alemanha e chegaram bem na Suécia. No Natal de 2020, já estavam no apartamento novo, se acostumando com a nova casa e eu pude finalmente relaxar. Todo esse processo deu gás para desenvolver a minha trama: a Sabrina, uma gata que se acha princesa, seria enviada para a Suécia e se envolveria em uma enorme confusão no país nórdico.

Personagens reais, fotos e doação

Foto da Sabrina tirada para o livro. Na história, ela usa a internet escondido e vigia o Instagram de sua ídola, a princesa Aurora.

Eu queria que a história carregasse todos os elementos reais possíveis. As personalidades dos gatos foram construídas de acordo com o jeito que eles se comportam de verdade. Eu entrei na história com o meu jeitinho e o Johannes com o dele. Na história, Sabrina se inspira na Aurora, uma gata princesa que mora na Suécia. E a Aurora existe de verdade!

O processo de escrita foi intenso. Durante um mês inteiro eu escrevi todos os dias, respirei a história, dormi e acordei com ela. Depois passei meses revisando e editando. A trama foi enriquecida com 36 fotos lindas tiradas pelo Johannes, que eu encaixei na história. Algumas foram tiradas no Japão e outras na Suécia.

Quando eu terminava o livro, me surgiu a ideia da doação. Por que não aproveitar esse diário da Sabrina para gerar algum dinheiro que ajude a ONG? Era uma forma de agradecer o que eles fizeram, apoiar os novos resgates, incentivar a leitura e a literatura brasileira. Tudo isso com um simples gesto.

Então decidi. Todo o lucro arrecadado na loja japonesa vai para a ONG, assim a comunidade brasileira pode ajudar na causa e se divertir com o livro ao mesmo tempo. E eu, olhando para trás depois de todo esse processo com os gatos e todo o tempo e amor dedicado a esse livro, só consigo me sentir grata. Os gatos foram salvos em seus piores momentos e depois me salvaram no meu pior momento. Agora estamos todos felizes e queremos a felicidade de mais pessoas e animais.

E você pode fazer parte disso também! Entre no link da loja japonesa (veja aqui) e adquira o livro. Se estiver no Brasil, o link é esse: veja aqui

Autor: Ana Paula Ramos

Jornalista e escritora, Ana tem sete anos de experiência no Japão, atuando como repórter na comunidade brasileira e como freelancer. Ela é a fundadora do Japão sem Tarjas e criadora do grupo ambiental "Por que você também não faz?". Em outubro de 2020, publicou o primeiro livro, "O Oitavo Andar", um suspense que se passa na cidade de Gramado. Em 2022 publicou o segundo livro, "O Diário da Minha Vida Ingrata", uma fantasia criada a partir de uma história real.

Nenhum pensamento

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s