O casal japonês com filho que decidiu viver separado: “se continuasse morando junto, eu teria esfaqueado o meu marido”

Foto: Marco Xu – Unsplash (imagem ilustrativa)

Viver debaixo do mesmo teto com a pessoa que escolheu para casar nem sempre é bom para ambos. Os hábitos diferentes e as dificuldades com os afazeres diários, criação dos filhos e tarefas domésticas acabam lançando desafios para a vida de qualquer casal.

Mas e quando os dois decidem que é melhor viver separados e, ao mesmo tempo, continuar o casamento? Michiko*, de 37 anos e Yusuke*, da mesma idade, tomaram esta decisão depois que o primeiro filho nasceu. Eles têm um perfil apaixonado e se dão muito bem, mas depois que a criança veio ao mundo, os problemas domésticos começaram.

Em casa, Yusuke tomava iniciativas para ajudar nas tarefas domésticas por achar que era muito peso em cima da esposa. No entanto, com relação ao filho, não fazia absolutamente nada. “Ela que tem mais afinidade com o bebê, então achava que era melhor que ela fizesse as coisas, até mesmo para o bem da criança”, se justificou.

O marido não se envolvia em nada com o filho, nem mesmo para levar ou buscar da creche e Michiko queria retornar ao trabalho e acabou pedindo ajuda dos próprios pais para cuidar do pequeno. A avó sugeriu que ela vivesse com eles para que ficasse mais fácil, mas de início, Yusuke rejeitou a ideia.

“Eu não gostei e não quis conversar. Não queria que outra pessoa se metesse na nossa relação, essa era a minha preocupação”, disse.

Michiko acabou se irritando com o comportamento do marido, que estava dificultando as coisas e insistiu para que vivessem separados. “Eu fiz uma proposta. A gente passaria os dias úteis em casas diferentes e se reuniria aos fins de semana. Seria o nosso momento de ficar juntos. Quando eu disse isso, ele aceitou. Fui para a casa dos meus pais com o nosso filho e ele se mudou para um apartamento”, contou.

Depois que a pandemia mexeu com o estilo de vida de ambos, Michiko ficou feliz de ter tomado essa decisão.

“Eu acho que foi muito bom. Se continuássemos morando juntos estaríamos ambos trabalhando em casa e mais a criança para cuidar. Eu acabaria esfaqueando o meu marido”, comentou, sem hesitar. “Deste jeito, tivemos mais um filho e as crianças passam a semana com os avós, não temos problemas com as tarefas e nos fins de semana eles adoram sair com o pai. É perfeito para nós”, diz.

Casamento moderno em casas separadas

Foto: Reprodução/Otona Answer

E não é apenas o caso de Michiko e Yusuke que chama atenção. Uma reportagem do portal japonês Otona Answer mostrou que há um movimento na direção de um tipo de casamento mais moderno, em que cada um vive na sua própria casa. 

Pesquisas realizadas no Japão indicam que há um maior interesse dos jovens nesse tipo de relacionamento em que a vida acontece em casas separadas. Uma pesquisa da empresa STRATE, que compara serviços online, entrevistou 400 jovens de 15 a 29 anos e perguntou sobre o que eles achavam do casamento em casas separadas.

Surpreendentemente, muitas pessoas falaram que gostariam de um relacionamento assim. Cerca de 40% das meninas responderam que é uma boa ideia. A taxa de respostas sobre não querer viver assim foi mais alta entre os meninos de 15 a 19 anos. 

Houve também uma diferença por região. A opinião de querer um casamento “separado” foi mais frequente em meninas que vivem em Tóquio ou Osaka, duas províncias mais populosas. Já em Miyagi, na região nordeste do Japão, 22,73% das respostas foram contra este modelo de casamento.

Os analistas envolvidos com a pesquisa acreditam que a localização não se trata de uma coincidência: “Nas cidades grandes é mais comum que o homem e a mulher trabalhe e gere renda, por isto podemos pensar que não seria um problema viverem separados”, afirmou um pesquisador.

*Os nomes são fictícios, assim como no texto original.

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Autor: Ana Paula Ramos

Jornalista e escritora, Ana tem sete anos de experiência no Japão, atuando como repórter na comunidade brasileira e como freelancer. Ela é a fundadora do Japão sem Tarjas e criadora do grupo ambiental "Por que você também não faz?". Em outubro de 2020, publicou o primeiro livro, "O Oitavo Andar", um suspense que se passa na cidade de Gramado. Em 2022 publicou o segundo livro, "O Diário da Minha Vida Ingrata", uma fantasia criada a partir de uma história real.

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