Japonês que vivia isolado morre de fome depois de cair nas mãos de empresa que prometia reabilitação social

Idosa investiu ¥12 milhões em um programa que prometia “dar um jeito” na vida do filho de 48 anos que não saía do quarto. Agora, a família cobra indenização de ¥50 milhões.

Imagem: Zakzak (ilustrativa)

Os problema dos adultos desempregados e que vivem em condição de isolamento dentro de casa é uma questão social grave no Japão. Os pais idosos que acompanham o filho de meia-idade nestas circunstâncias, tendem a temer o futuro e a buscar ajuda.

Foi com este sentimento que uma família tomou medidas drásticas em Tóquio. Keiko Takahashi* que tem cerca de 80 anos, encontrou na internet uma empresa privada que oferecia um programa de “recuperação” para adultos isolados, os chamados “hikikomori“.

Segundo a reportagem do Jornal Sankei, o contrato custava ¥9 milhões, mas a empresa prometia “dar um jeito” no filho dela, Takayuki*, de então 48 anos. 

Takayuki teve problemas com um chefe quando tinha cerca de 25 anos, largou o emprego e desde então passou a viver em isolamento e sem exercer nenhuma atividade rentável ou produtiva. Desesperada para resolver a situação, Keiko vendeu a casa e contratou os serviços da empresa. 

A família passou por um longo drama que durou mais de dois anos e terminou em tragédia: Takayuki foi negligenciado pela empresa e acabou morrendo de fome. O desfecho gerou revolta na famíla, que entrou com um processo na Corte de Tóquio e pede ¥50 milhões de indenização.

Programa duvidoso

Em janeiro de 2017, Keiko se reuniu pela primeira vez com um funcionário da Clean Answer, a empresa privada de Shinjuku (Tóquio), que está atualmente em processo de falência.

No encontro, a idosa ouviu grandes promessas. O funcionário recomendou o programa de seis meses para Takayuki, que não estava presente e sequer sabia dos planos da mãe. O custo era caro, mas prometia a reinserção social a ponto do homem conseguir voltar a trabalhar.

Keiko acreditou que valeria a pena se fosse mudar a vida do filho. Ela vendeu a casa, pagou a empresa e se endividou.

Pouco tempo depois, recebeu a visita de uma equipe de cinco homens da empresa. O grupo incluia funcionários com perfil de guarda-costas, musculosos e intimidadores.

“Eu tentei guiá-los ao quarto de Takayuki, mas eles me disseram para esperar no andar debaixo. Três homens entraram no quarto dele e cerca de 30 minutos depois, o meu filho saiu do quarto com os ombros caídos, parecia aflito e constrangido, como se se sentisse traído por mim”, relatou.

Takayuki entrou no carro dos homens e foi embora. Esta foi a última vez que Keiko viu o filho.

Em nome da independência

A idosa ficou aflita com a situação, mas decidiu confiar na promessa da empresa. Takayuki entrou na instituição para reabilitação e uma vez por mês escrevia um bilhete em um relatório, que era enviado para a mãe.

Os bilhetes sempre diziam que ele estava bem e mais animado para buscar um emprego.

Relatório que a família recebeu sobre Takayuki, dizendo que se sentia renovado e queria um emprego. Foto: divulgação/Jorna Sankei

Keiko pedia para falar diretamente com o filho, mas o responsável dizia que não seria bom para o tratamento dele. E o tempo foi passando sem que eles tivessem contato.

Em agosto daquele ano, Keiko ouviu da empresa que o filho seria transferido para Kumamoto, província na região de Kyushu (sul do Japão) e que continuaria o mesmo programa de lá, em uma representação da empresa.

No entanto, a família teria que pagar por mais seis meses de contrato, que teria o acréscimo de ¥3,8 milhões. Keiko pagou pela renovação do contrato e depois disso, passou a receber cada vez menos contato da empresa.

“Eu perguntava sobre o meu filho com insistência e eles diziam que Takayuki estava morando sozinho em um apartamento e trabalhando em um lar de idosos. O contrato acabou de novo e eu fui orientada a evitar contato com ele, em nome de sua independência”, disse.

Em abril de 2019, a família foi surpreendida pela notícia de que Takayuki foi encontrado morto no apartamento. Ele tinha morrido de fome. Keiko descobriu que o filho passou a morar sozinho em novembro de 2017 e em julho de 2018 largou o emprego no lar de idosos.

No entanto, não houve nenhum aviso da empresa à família quando o filho saiu do trabalho. Sem emprego, renda ou assistência, ele acabou definhando até morrer.

Keiko e a filha mais velha entraram com o processo contra a empresa e o pedido de indenização. A idosa alega que a empresa se comprometeu em dar assistência contínua ao filho quando ele ingressou na instituição.

“Achei que eles não iam parar de dar suporte ao meu filho. Quero que outras mães que passam pela mesma situação que eu passei saibam que existe esse tipo de problema”.

O advogado que representa a instituição disse em entrevista que a empresa cumpriu com o dever de apoio, que o homem se tornou independente e que não tinha o dever legal de fiscalizá-lo.

O problema das empresas privadas

O surgimento de empresas que prometem resolver a questão das pessoas que vivem em isolamento tem gerado um novo problema social, como mostrou o caso de Takayuki.

Na maioria das vezes, essas empresas cobram um valor alto pelo serviço e o contrato é fechado pelos familiares, sem que a vontade do isolado seja respeitada.

Muitas empresas visam apenas o lucro, levam o “hikikomori” sob pressão para fora de casa e não prestam a assistência necessária. Sem conseguir resolver a questão pessoal do indivíduo, os problemas apenas aumentam.

Masaki Ikegami, líder da NPO (organização sem fins lucrativos) Kazoku Hikikomori Japan, que presta assistência para estes casos, diz que muitas empresas fazem propaganda duvidosa na internet.

“Essas empresas apresentam dados duvidosos e sem comprovação, dizem em suas páginas que 90% dos casos assistidos encontram um emprego e atraem novos clientes assim”, explicou.

As razões que levam as famílias a contratarem este tipo de serviço tem mais a ver com a crença de que um trabalho irá resolver os problemas do filho em isolamento.

“Não se trata de forçar a pessoa a trabalhar. É preciso prestar uma assistência para a vida, desde o apoio ao trabalho até um suporte para mudar o estilo de vida”, reiterou.

Muitas vezes, as famílias que passam por esse tipo de situação também tentam outras alternativas sem sucesso, como consultar as prefeituras. Sem uma resposta que resulte na solução do problema, fica mais fácil cair em armadilhas.

“Esse problema precisa ser amplamente verificado pelo poder público. Os setores de Bem-estar Social devem fortalecer ações capazes de ajudar os isolados e as famílias”, sugeriu.

*Nomes fictícios

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Autor: Ana Paula Ramos

Jornalista e escritora, Ana Paula tem sete anos de experiência no Japão, atuando como repórter na comunidade brasileira e como freelancer. Ela é a fundadora do Japão sem Tarjas e criadora do grupo "Por que você também não faz?", que realiza mutirões de limpeza em praias no Japão. Em outubro de 2020, publicou o seu primeiro livro, "O Oitavo Andar", um suspense que se passa na cidade de Gramado e está disponível na Amazon.

2 pensamentos

  1. A família precisava de ajuda espiritual,pra que ele e muitos que enfrentam a mesma situação possam sair da depressão,precisam de Jesus em suas vidas!A Bíblia diz que :Aquele que vive isolado busca seu próprio desejo;insurge-se contra a verdadeira sabedoria (Provérbios 18:1)E em Genesis Deus dix também que não é bom que o homem viva só( Capítulo 2:18)

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